Como Aumentei Minha Produtividade em 915% Com Um Post no Facebook

O facebook é a pedra no sapato de muita gente, junto com as demais redes sociais. Elas constituem, sem dúvida, as maiores distrações da vida moderna.

É possível que você mesmo esteja batalhando para desenvolver uma melhor disciplina de concentração e esteja longe dessa rede social. Por isso, eu sei que pode parecer estranha a ideia de que o facebook pode ajudar a aumentar sua produtividade, especialmente por um fator tão grande (915%!).

Mas eu passei por isso, com um experimento de produtividade que criei. Já falamos brevemente dessa forma diferente de tratar a produtividade por aqui.

Eu já sabia que o formato tinha potencial para funcionar, já que algo similar me ajudou a escrever meu primeiro livro. Mas, dessa vez, o uso do facebook foi essencial para alcançar meu objetivo.

Com um pouco de conhecimento sobre estratégia e como a mente humana funciona, você pode transformar seu maior inimigo da produtividade em aliado.

Veremos o como, de forma detalhada, agora.

Você é seu pior inimigo. Você perde um tempo precioso sonhando com o futuro em vez de se envolver com o presente. Visto que nada lhe parece urgente, você está apenas parcialmente envolvido no que faz. A única maneira de mudar é com ações e pressão externa.

— Robert Greene

Imagine o seguinte cenário: você é um escritor famoso, que lançou uma obra que fez bastante sucesso. Todo mundo do círculo literário quer conversar, sair para beber e se divertir. Você é a nova estrela, todos os críticos lhe adoram.

Mas e sua escrita, como fica depois disso?

O processo natural é se tornar um pouco desleixado, focando mais em festas e eventos importantes. Aos poucos, a pressão de criar uma obra tão boa quanto a última começa a crescer em seus ombros e você não tem perspectiva de material escrito de qualidade. A sensação de pânico começa a surgir.

É um fenômeno real, pelo qual muitos escritores passam: há inclusive uma palestra TED a respeito, com a autora do Comer, Amar e Rezar.

Contudo, voltemos a você e sua escrita. Uma vez que percebe todo esse processo de desleixo e pressão crescente acontecendo, o que você faz a respeito?

Vai para o cassino e gasta até seu último centavo em apostas, de modo que você está efetivamente pobre. Desse modo, não há mais espaço para desleixo e falta de foco: ou você escreve algo bom ou não vai ter o que comer logo logo.

O escritor, nesse caso, foi um cara chamado Fiódor Dostoiévski.

O Problema da Procrastinação

Há, literalmente, dezenas de fatores que levam alguém a procrastinar. Desde o nível de ruído até à temperatura da sala, passando pelo estado de saúde e a qualidade do sono. Tudo isso pode influenciar na capacidade do ser humano de realizar o trabalho que precisa.

Todavia, se olharmos com bastante cuidado, há uma causa quase universal permeando a maior parte da procrastinação. Calvin e Hobbes dão uma boa dica sobre essa causa a seguir.

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“E aí, já teve alguma ideia pro seu projeto?”

Não, estou esperando uma inspiração. Você não pode simplesmente sair criando assim. Você deve estar no espírito certo”

“E que espírito é esse?”

“Pânico de última hora”

Todo mundo já passou por uma situação parecida: por um motivo ou outro, você se depara com uma deadline apertada para uma tarefa muito importante, que você não consegue nem imaginar deixar de cumprir.

De algum modo, a adrenalina do pânico faz com que você entre em um outro estado: a visão fica clara, todas as distrações se tornam periféricas e você assume uma postura extremamente decidida e eficiente. Afinal de contas, não há tempo a perder. Ou a tarefa é concluída, ou algo incrivelmente ruim irá acontecer.

Depois que tudo isso passa, você olha para trás e se pergunta: “como diabos eu consegui concluir X em tão pouco tempo? Eu vinha trabalhando naquilo há semanas sem muito progresso e em apenas algumas horas consegui concluir uma versão decente!”

A verdade é que todos temos o potencial para agir dessa maneira quase “mágica”. O problema, como Robert Greene coloca, é que crescemos complacentes ao longo do tempo. As situações da rotina não exercem pressão suficiente para nos mover: o chefe passa um afazer urgente, mas no fundo você sabe que aquilo não é urgente, já que a deadline sempre é adiada. Procrastiná-la, portanto, não irá trazer consequências graves.

Lidar com a procrastinação pode passar por mudar esse nosso constante estado de “torpor” para a mentalidade da urgência, da REAL urgência, que deixa você até sem dormir se preciso, contanto que o que precisa ser feito o seja.

Como nos manipularmos a tal ponto?

Fator 1: A Estratégia da Zona da Morte

A zona de morte é um fenômeno psicológico que transcende o campo de batalha; é qualquer conjunto de circunstâncias no qual você se sente preso e sem opções. Existe uma pressão muito real em suas costas, e você não pode recuar. O tempo está se esgotando. O fracasso – uma forma de morte psíquica – está encarando você. Você precisa agir ou sofrer as consequências.

—Rober Greene

Desde o momento em que alguém começou a pensar sobre guerras e como combater de modo eficiente, houve o questionamento sobre como dar o máximo de ânimo aos soldados durante uma batalha. Como fazê-los superar as hesitações do instinto natural de sobrevivência e atacar o inimigo com toda força possível.

Alguns generais conseguiram bastante sucesso com a oratória: instigando os homens à luta, lembrando-lhes da importância daquela batalha para sua terra. Outros, como os Espartanos, acreditavam que a coragem nascida dos grandes discursos de generais era a falsa coragem; só uma fagulha que iria logo desaparecer diante dos inimigos mais fortes. Para os Espartanos, a maneira de fazer o exército dar o máximo de si em cada batalha era através do condicionamento, ao trazer a guerra para o dia a dia do soldado.

Sun Tzu, em seu famoso tratado militar a Arte da Guerra, não podia deixar o tema de fora. Não dando muito crédito aos discursos, Sun Tzu falou da zona da morte – um lugar físico onde seu exército estaria com alguma limitação geográfica que eliminasse a possibilidade de fugas. Atacar o inimigo com as costas para o rio ou para o mar, por exemplo; ou o exército vai adiante, ou morre afogado.

Para o famoso estrategista chinês, o que faz os homens lutarem como verdadeiros demônios é se enxergarem sem opções: ou vencem, ou morrem. Tanto que ele recomenda que, em qualquer batalha, você deve sempre deixar uma rota de fuga disponível ao inimigo: caso contrário, o efeito da zona de morte vai se voltar contra você: seu inimigo vai lutar dobrado já que não tem para onde recuar.

Embora seja uma estratégia militar, ela tem aplicação real para o mundo de hoje e para sua busca pela produtividade.

Quando encontramos uma tarefa muito importante que precisa ser feita de todo jeito (caso contrário algo muito ruim vai acontecer – normalmente é tão ruim que você nem pensa a respeito, apenas sente, em suas entranhas, que precisa evitar aquilo a todo custo) somos posicionados na Zona da Morte. Agimos com foco e atenção redobrada.

É isso que fiz: o primeiro fator do meu “experimento” foi me posicionar propositadamente na Zona da Morte.

Fator 2: Aversão a perdas

O ser humano odeia perder.

… o que não chega a ser uma novidade. Afinal de contas, perder é obviamente algo ruim. Você passa a ter menos recursos, menos chances de sobreviver, então é natural que haja algo intrínseco em nosso cérebro que nos afaste da derrota.

O curioso, porém, é que desgostamos a derrota mais do que gostamos da vitória. Resultados de estudos na área de psicologia cognitiva mostram como a dor de perder X dólares é maior que o prazer de ganhar X dólares de modo inesperado.

Esse achado abre todo um leque de possibilidades: se somos mais movidos pelo medo da perda do que pelo prazer da obtenção, é possível “rescrever” os objetivos de modo que foquem na perda. Por exemplo, é possível focar no quanto sua vida vai ser ruim, quanta culpa e sofrimento virão de você se não concluir aquele relatório para segunda.

Se a perda for definida de modo financeiro, notei que o efeito é ainda mais forte. Assim, a aversão a perdas foi o segundo fator de meu experimento.

Fator 3: Pressão Social

Para quem tem a menor ideia de como os seres humanos chegaram ao topo do planeta Terra como espécie, o poder da pressão social não é novidade. Mas para as pessoas que não têm experiência na área de evolução, pode até parecer uma surpresa o quanto nosso círculo social nos afeta.

Não se trata apenas de querer fazer algo para não ser envergonhado na frente dos amigos, é bem mais profundo, passando pela forma como nossos cérebros evoluíram. Entrar em detalhes aqui não vem ao caso, mas apenas ter em mente o impacto (positivo e negativo) que sua rede social causa em você (direta e indiretamente) já vai lhe ajudar a planejar o que pretende alcançar.

Se eu queria aumentar minha produtividade, claro que convidaria o efeito dessa força tão significativa, tendo sido ela o terceiro fator de meu experimento.

Agora, vamos discutí-lo em mais detalhes.

Usando o Facebook Para Ser Produtivo

Antes, deixe-me explicar o motivo de ter precisado realizar esse experimento.

Eu estava passando por um momento pessoal complicado, enquanto estava bastante ocupado no nível profissional. Para completar, precisava iniciar meu projeto de conclusão de curso, cuja parte inicial consistia em desenvolver uma pesquisa (acadêmica) básica e escrever a introdução.

O problema é que eu não tinha boas associações com pesquisa acadêmica. Há alguns anos, engajei-me em um projeto de iniciação científica cuja proposta era interessante, mas o trabalho do dia a dia era pura pesquisa e catalogação. Saí depois de seis meses pois achei entediante ao nível de achar uma tortura, embora o tema fosse interessante.

Por isso, ao precisar escrever minha introdução anos mais tarde, simplesmente não conseguia: procrastinei por tempo demais. Até que chegou o momento de entregar a primeira versão ao orientador e a preocupação veio; era hora de dizer basta.

Em um final de semana, resolvi fazer uma aposta com meus amigos: eu teria 24h para concluir 1000 palavras da introdução, caso contrário eu perderia dinheiro. O diferencial aqui é como eu estruturei a aposta: me comprometi a dar 20 reais a cada pessoa que desse um like naquele post. Desse modo, dei incentivo aos meus amigos a participarem do processo e, ao mesmo tempo, fiz uma aposta onde poderia perder muito dinheiro.

Especialmente porque, como você pode ver, não demorou para as pessoas começarem a compartilhar e o post ganhar mais e mais likes. Afinal de contas, dinheiro de graça é bom demais, certo? Em algumas horas, a aposta já tinha passado de 2000 reais.

Como eu não tinha esse dinheiro na época (a maior parte do que tinha estava investida), fiquei realmente preocupado e numa situação delicada. Eu precisava terminar aquela introdução ou seria obrigado a pagar uma dívida que não parava de crescer com um dinheiro que não tinha no momento. Ou seja, eu me coloquei exatamente no lugar onde queria: na zona da morte, com a pressão de amigos e correndo o risco de perder dinheiro.

Não preciso nem dizer que terminar a introdução nessas condições foi fácil e a produtividade explodiu de um dia para outro.

Tempo Aposta - Toggl
No outro dia, fiz o post que decepcionou muita gente: concluí o trabalho e ganhei a aposta.

A galera levou na brincadeira e até ficou feliz por me ver finalmente produzindo! :)

Use Esse Plano Com Sabedoria

A ideia da aposta no facebook funcionou muito bem e de fato me forçou a ser eficaz: entreguei o que precisava no prazo.

Contudo, ela não é pílula mágica. Se você tem um problema crônico de procrastinação, apostas e pressão social não terão o mesmo efeito.

Esse esquema de produtividade é útil quando:

  • A tarefa a ser feita está muito bem definida (escrever 1000 palavras da introdução)
  • Sua dificuldade de produção é pontual (meu problema de produtividade era com o TCC e não com a vida no geral)
  • É feito no máximo algumas vezes no ano

Usar esse plano para sair do zero pode ser um bom “chute inicial” para colocar sua bola para rolar. Por um mundo com menos procrastinação e mais ideias transformadas em ação.

O que acha do experimento? Pensa que cabe aplicar a sua vida agora?

 

Paulo Ribeiro

Autor, empreendedor, amante do aprendizado e um estrategista moderno. Escreve sobre estratégias para viver uma vida melhor e mais significativa.

 
  • Rodrigo de Oliveira

    Excelente post Paulo! Você já sabe das minhas experiências com apostas e aversão a perdas… hahahaha mas gostei muito da maneira como tu falou das limitações dessa abordagem, posso confirmar por experiência própria que é importante usar dessa estratégia em situações pontuais.

  • Caraca, que demais! Tem que usar com sabedoria mesmo porque vai acabar conseguindo escrever uma Bíblia do Estrategista em 10 minutos.

  • Ana Paula

    Incriveeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeel, de onde vc tira essas ideias? Voce é brilhante!

  • Pingback: Como Mudar de Vida Radicalmente | Estrategistas()

  • Marcus Rodrigues Faust

    Gostei e apliquei.

    A meta é diferente, irei entrar em forma e, caso não consiga, pagarei R$5,00 a cada amigo que curtir minha foto.

    Pelo valor que teria de pagar, acho que já encontrei o estímulo necessário.

  • JC

    Bastante divertido, não fosse pela condição manipulável basicamente pela sociedade e pelo dinheiro. Atitude de auto-manipulação. Escrever 1000 palavras e entregar apenas também não exprime que atingiu o resultado esperado. A vida, se precisar de estímulo (mas acredito que não precisa para aquele que a entendem por completo), não deve ser pelo dinheiro e aparência no que os outros vão pressionar sobre suas atitudes. Modelo insustentável e insuportável. Porém Parabéns por outros conteúdos úteis e interessantes no site, vamos à frente porque o atrás já passou.