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Nós já discutimos aqui como ficção é uma arma poderosa, principalmente se você quer entender a realidade. Através de narrativas, muito mais compreensíveis a mente humana que fatos, podemos analisar conceitos aparentemente complicados e torná-los acessíveis a todos.

Abaixo, segue um trecho do livro Harry Potter e os Métodos da Racionalidade. Eu já indiquei ele aqui; é uma fanfiction, ou seja, uma ficção reescrita por um fã. Nesse caso, o “fã” que reescreveu a história é uma das pessoas mais inteligentes do mundo, Eliezer Yudkowsky. Ele fundou o Less Wrong, site mundialmente conhecido por espalhar a virtude da racionalidade, e agora está trabalhando para evitar que a raça humana seja extinta por computadores no futuro.

Não importa se você gosta de Harry Potter ou não, recomendo que você leia esse livro; vai te dar várias habilidades essenciais para um estrategista: melhor tomada de decisões, um melhor senso de ciência, uma boa noção dos vieses cognitivos, etc. Tudo isso de maneira prática, engraçada e envolvente.

Vá em frente e comece a ler agora. É de graça, online (há versões em pdf,  para tablets e kindle também). A versão em português, 10 % traduzida, e a versão original completa.

Por ora, deixo você com uma breve discussão sobre a inteligência humana.

——

E ao lado de Draco, Harry caminhava com um sorriso no rosto, pensando sobre as origens evolutivas da inteligência humana.

No início, antes das pessoas entenderem bem como a evolução funcionava, elas estavam por aí pensando ideias malucas como a inteligência humana evoluiu para que pudéssemos inventar ferramentas melhores.

A razão para isso ser loucura é que apenas uma pessoa na tribo tinha que inventar uma ferramenta, e então todo mundo iria utilizá-la, e se espalharia para outras tribos, e ainda seria utilizada por seus descendentes cem anos depois. Isso seria ótimo a partir da perspectiva de progresso científico objetivo, mas em termos evolutivos, significava pessoa que inventou algo não teria muita vantagem adaptativa, não teria muito mais filhos que as demais.

Apenas vantagens adaptativas relativas poderiam aumentar a frequência de um gene na população e conduzir alguma mutação solitária para o ponto onde ele fosse universal e todos a tivessem. E invenções brilhantes não eram comuns o suficiente para fornecer o tipo de pressão seletiva consistente necessária para promover uma mutação.

Foi um palpite natural, se você olhar para os seres humanos com suas armas, tanques e bombas nucleares e comparar com os chimpanzés, que a inteligência estava lá para fazer a tecnologia. Uma suposição natural, mas errada.

Antes das pessoas entenderem bem como a evolução funcionava, elas estavam por aí pensando idéias malucas como o clima mudou, as tribos tiveram que migrar e as pessoas tiveram que se tornar mais espertas a fim de lidar com todos os novos problemas que surgiram.

Mas os seres humanos têm 4 vezes o tamanho do cérebro de um chimpanzé. 20% da energia metabólica de um ser humano vai para alimentar o cérebro. Os seres humanos são ridiculamente mais espertos do qualquer outra espécie. Esse tipo de coisa não acontece porque o ambiente aumentou a dificuldade dos problemas um pouco. Se fosse o caso, os organismos iriam ficar apenas um pouco mais inteligente para resolvê-los. Acabar com que o cérebro gigantesco e descomunal deve ter sido por conta de algum processo evolutivo paralelo, algo que empurrou e empurrou sem limites.

E os cientistas de hoje têm um palpite muito bom sobre qual processo evolutivo foi.

Harry leu certa vez um livro famoso chamado Política dos Chimpanzés. O livro descrevia como o chimpanzé adulto chamado Luit confrontou o decadente chimpazé alfa Yeroen, com a ajuda de um jovem, recém adulto Nikkie. Nikkie não interveio nas lutas diretamente entre Luit e Yeroen, mas tinha impedido outros apoiadores de Yeroen na tribo de vir em seu auxílio, distraindo-os sempre que um confronto entre Luit e Yeroen acontecia. E com o tempo Luit ganhou, e se tornou o novo alfa, com Nikkie como o segundo mais poderoso …

… embora não tenha demorado muito depois disso, para que Nikkie formasse uma aliança com Yeroen, derrotasse Luit, e se tornasse o novo novo alfa.

Isso realmente faz você apreciar como milhões de anos de hominídeos tentando superar uns aos outros – uma corrida armamentista evolucionária sem limite – conduziu o aumento da capacidade mental humana.

  • William Herbert
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    William Herbert

    Puxa nesta versão Harry é um gênio, se a inteligência aumentar proporcionalmente com os personagens, as ponderações de Dumbledore sobre qualquer coisa deixariam um PhD de Harvard ou MIT coçando a cabeça e folheando alguns livros de referência para sacar o que foi só uma piada sobre doces e o que explica definitivamente o sentido da vida. E parabéns para quem sobreviver a uma explicação técnica da Hermione.

    Indo para o assunto: creio que a humanidade esteja se dividindo em termos de evolução, há “muitos tipos de gente” misturada, gente que quer da vida só ganhar o salarinho e gastar no churrascão, gente agindo e gerando resultados reais pela melhoria do mundo, gente que te manda praquele lugar quando você timidamente pede para não jogarem lixo no chão do ônibus, filósofos alimentando e formando seres humanos, reclamadores enriquecendo por berrar, Gandhi, Maluf, enfim muitas tendências de ser humano.

    Essa coisa da corrida armamentista sendo responsável pela evolução e da guerra e do conflito serem os bastiões do “progresso” começam naquela história onde todos os seres unicelulares se alimentavam dos nutrientes do caldo nutritivo e de repente, começou o comportamento predatório. Poderíamos dizer que não chegaríamos a ese ponto não fosse a guerra.

    É verdade também algo exatamente oposto, a mitocôndria e a floral intestinal do corpo humano surgiram da associação de diferentes organismos. Podemos dizer então que não teríamos chegado aqui se não fosse o poder da colaboração e da aliança.

    Apesar de meus impulsos egoístas e despóticos, tenho consciência de que não há significado per si em ser alfa. Se for para ser o Alfa, que seja de mim mesmo. Ser coroado meu próprio rei me proporciona muito mais riqueza, evolução e desenvolvimento que a competição sem sentido, ainda mais com o papel masculino ( e humano num âmbito maior) vem mudando a passos largos.

    Não posso afirmar nada, como um leigo atento posso dizer apenas que talvez essa “corrida armamentista/ evolucionária” acabei saindo pela tangente em algum lugar, e se torne uma coisa positiva. Escolhendo acreditar nisso, e escolhendo acreditar na humanidade, movo minha vida e minhas ações para essa direção.

    Uma aposta improvável de ganhar? Sim, tenho ciência. Mas nós humanos já perdemos tantas fichas, que só viramos o jogo com um Royal Straight Flush.

    Quem aí anda guardando um ás na manga?

    • Paulo Ribeiro
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      Paulo Ribeiro

      hahaha eu ri demais com o primeiro parágrafo!

      O Harry é mais inteligente sobre esse lance de ciência, mas só ele saca bem essas coisas, daí quando rola o diálogo sobre algo mais interessante, é ele explicando a outra pessoa como no diálogo acima. O livro não fica com papo técnico entendiante, é sempre escrito de uma maneira envolvente.

      Ah, o resto dos personagens não sabem ciência mas estão espertos também, principalmente Voldermot. Fica bacana demais acompanha uma trama tão inteligente.

      Sobre isso que você falou, bem, não acho que um ponto comportalmental (decidi que tipo de futuro quer) é algo forte o suficiente para levar a um isolamento genético que eventualmente poderia gerar uma especiação, mas há bastante gente lá fora pensando nisso também.

      Por coincidência, li um texto no livro This will make you smarter falando de como pessoas diferentes têm horizontes diferentes em relação ao dinheiro. Um cara tentou correlacionar como isso pode influenciar o possível futuro profissional (pessoas com menos necessidade de retorno imediato seriam melhores executivos em cargos top, por exemplo), mas aí acharam a teoria meio racista e abandonaram. Mas os insights são válidos; eventualmente devo escrever sobre como pessoas diferentes têm estratégias diferentes em relação ao dinheiro.

      Leitura adicional: http://www.edge.org/response-detail/11105

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