4 Estratégias Para Encontrar Sua Vocação (Utilizadas Por Grandes Nomes da História)

Encontrar a vocação e fazer o que ama parece ser o sonho de 10 em cada 10 pessoas

Afinal de contas, nem só de dinheiro vive o ser humano. Realização e desenvolvimento do próprio potencial é algo tão importante quanto para viver uma vida mais feliz e significativa. Segundo Robert Greene, autor de Maestria:

A verdadeira satisfação resulta da superação de desafios, do sentimento de confiança em suas capacidades, da conquista de fluência nas habilidades e da sensação de poder daí decorrente.

Só é possível atingir essa satisfação depois de encontrar a própria vocação e isso está cada vez mais difícil de realizar numa sociedade que causa barulho com sua influência, impedindo que entremos em contato com nossos próprios desejos.

Ao descobrir nossas inclinações primordiais, podemos trabalhar para gerar riqueza e ser feliz ao mesmo tempo. E a sensação de estar perdido sem saber o que fazer na vida vai se dissipar.

Para tanto, eu compilei 4 estratégias usadas por grandes nomes da história para ajudar você a encontrar sua vocação. Acredite, não é algo que se alcança do dia para noite, mas é um processo e você pode começar a trabalhar nele agora mesmo.

Continue lendo esse artigo para descobrir:

  • A realidade sombria do mercado de trabalho
  • Por que “vocação” é algo real
  • A diferença entre talento e vocação
  • Quatro estratégias para você descobrir sua própria vocação
  • Como desenvolver sua vocação sem precisar pedir demissão

Parece interessante?

 

A Realidade Sombria do Mercado de Trabalho

mar com neblina forte

A sociedade está mudando em um ritmo frenético nas últimas décadas e poucas pessoas percebem o impacto nas relações sociais, focando apenas em avanços tecnológicos. A presença ubíqua da tecnologia da informação não só facilita a realização de trabalhos escolares, mas altera o próprio tecido da sociedade capitalista, já que as relações de emprego e carreiras profissionais estão sendo reescritas.

Por um lado, uma previsão atual aponta que até mesmo 47% dos empregos serão automatizados dentro dos próximos vinte anos, o que significa que metade das pessoas ativas hoje estarão desempregadas em médio prazo. E claro, nenhum país está preparado para lidar com isso, o que faz com nossa confiança na previdência social – e na sua capacidade de pagar nossas aposentadorias – se esvair.

Por outro, o caminho tradicional para o “sucesso” está ficando inviável. Antes, o esforço era entrar numa boa faculdade. Passou a ser ter o domínio do inglês como diferencial. Depois, ter experiência no exterior. Ter o domínio da 3º língua. Ter especializações. E a lista de demandas para cada vez menos vagas não para de crescer. A realidade é que não há mais estabilidade profissional nem espaço para todo mundo no mercado formal de trabalho. E, ao que tudo indica, parece ser um processo irreversível.

Um dos livros que recomendo mais fortemente, Escolha Você, do James Altucher, traz uma explicação interessante para a crise econômica de 2008. Ainda que talvez um pouco exagerado para o cenário brasileiro, a análise de James do cenário americano dá uma boa ideia de nosso futuro:

A maioria dos empregos que existiam há 20 anos não são precisos agora. Talvez eles nunca tenham sido. A primeira década inteira desse século foi gasta pelos CEOs em clubes na Park Avenue se lamentando entre cigarros, “como nós vamos despedir todo esse peso morto?”. 2008 finalmente deu a eles a chance. “Foi a economia!”, eles disseram. O país está fora de recessão desde 2009. Quatro anos agora. Mas os empregos não voltaram. Eu perguntei a muitos desses CEOs: “você só usou aquilo como uma desculpa para despedir pessoas?”, e eles piscavam para mim e diziam “vamos deixar por isso mesmo”.

 

Essa História Parece Com A Sua?

Eu nunca cheguei a fazer uma estatística a respeito, mas posso dizer com confiança que pelo menos quatro em cada cinco emails que recebi de leitores desde o nascimento do Estrategistas trata de insatisfação com vida, gerada basicamente pela escolha de profissão. É muito comum ver pessoas que:

  • Começam uma faculdade com motivação financeira e não aturam o curso.
  • Encontram-se em um emprego que não gostam mas não sabem como progredir na vida.
  • Concluem a faculdade, mas estão desempregadas.
  • Estudam para concursos por falta de alternativa.

E, por mais incrível que possa parecer, mesmo pessoas com salários altos e carros de anos podem se sentir insatisfeitas em um nível pessoal com a carreira escolhida. Aparentar ter dinheiro, afinal, não significa necessariamente ter uma vida rica, já que o dinheiro vem com todo um conjunto de obrigações e dependências ocultas que quase ninguém considera ou fala a respeito. Além disso, bem estar financeiro é uma condição relativa (varia de pessoa para pessoa) e é necessária, mas não suficiente para satisfação pessoal.

O resumo do quadro geral, então, não parece ser muito animador.

  1. A concorrência aumenta de modo vertiginoso, tanto porque mais pessoas possuem acesso ao “caminho tradicional” para o sucesso (faculdade -> bom emprego), quanto porque há menos vagas disponíveis, graças ao aumento da eficiência promovida pelos recursos tecnológicos.
  2. O entendimento comum sobre o caminho para o sucesso não funciona e está escalando de modo insano. Graduação, pós, ingêls, espanhol, francês, experiência no exterior, habilidades comunicativas, tudo isso para um emprego regular.
  3. O nível de frustração profissional só cresce, já que os caminhos profissionais promovidos como atraentes não se encaixam com as aspirações individuais das pessoas, resultando em uma vida frustrada e vazia (com ou sem dinheiro).

O que fazer, então? Será que é possível encontrar o que se ama, trabalhar e prosperar financeiramente na área?

A Vocação é Algo que Você Pode Construir

find what you love

Robert Greene é uma das mentes estrategistas mais brilhantes da atualidade. Autor de 5 bestsellers internacionais, seu trabalho tem uma característica distinta: a busca por soluções para problemas atuais na História. Seus livros (33 Estratégias de Guerra, As 48 Leis do Poder, Maestria, A Arte da Sedução e A 50º Lei) são recheados de lições retiradas da vida de grandes nomes, desde Sun Tzu, Maquiavel e Von Clausewitz, até Benjamin Franklin, Mozart e Don Juan.

No caso do livro Maestria, Robert objetiva descrever e trazer um entendimento melhor sobre o que fez os grandes ícones de todas as áreas serem quem eles são. O que faz um homem alcançar feitos magníficos, explorando seu potencial ao máximo e vivendo uma vida mais significativa? Para ele, todos foram resultados da combinação especial entre engajamento em suas verdadeiras vocações com trabalho duro (executado de um modo especial, que podemos discutir em outra ocasião).

O livro defende o caso de modo bem persuasivo que a verdadeira felicidade vem do alinhamento de nossas inclinações únicas com o esforço consciente na direção do crescimento e da expansão de nossas habilidades. Dinheiro, fama e sucesso? Chegam, mas como consequência.

Se você se desvia de sua vocação interior, pode até ter algum sucesso na vida, mas acabará vítima de seu verdadeiro desejo. Seu trabalho se torna mecânico. Você passa a viver para o lazer e para prazeres imediatos. Assim, torna-se cada vez mais passivo e nunca avança além da primeira fase. Você pode ficar frustrado e deprimido, sem se dar conta de que a fonte de tudo isso é a não realização de seu potencial criativo.

— Robert Greene

O princípio é simples: você é único no universo pois seu DNA é único. Nunca antes na história nasceu uma pessoa com a mesma informação genética que você, muito menos que tenha crescido no mesmo ambiente, sob as mesmas condições. Por isso, podemos supor que o conjunto de atividades que vai prender seu interesse são razoavelmente únicas.

Para algumas pessoas, são trabalhos manuais, já que elas se sentem bem construindo coisas. Para outras, a música esconde um fascínio incrível que as faz se sentir conectadas com o ambiente. Para outras é a matemática, a química, o futebol, o arco-e-flecha… enfim, cada humano possui um conjunto de interesses únicos.

Isso é o que chamamos de vocação. Se antes o conceito descrevia uma pré-destinação religiosa do universo para certa atividade, agora ele descreve sua inclinação natural e únicas para determinadas áreas baseadas na singularidade de seu DNA. Você pode até ter algum sucesso em uma carreira que não seja sua inclinação natural, afirma Robert, mas em alguns anos, com ou sem dinheiro acumulado, você começa a se sentir inquieto e vazio. Seu potencial está dormente e a falta de ação começa a influenciar as outras áreas da vida.

A Diferença Entre Talento e Vocação

skate homem talento

Ter vocação para algo significa ter talento naquela atividade? Significa ser naturalmente bom? Não. O modo como utilizamos a palavra “talento” está errado e deveríamos aposentá-la. A busca por vocação reflete a direção na qual você começa o caminho, não que você começa a jornada com mais velocidade que os outros (significado tradicional de ‘talento’).

Só não falem de dons e talentos inatos! Podemos nomear grandes homens de toda espécie que não eram superdotados. Mas adquiriram grandeza, tornaram-se “gênios” (…) todos tiveram a diligente seriedade do artesão, que primeiro aprende a construir perfeitamente as partes, antes de ousar fazer um grande todo; permitiram-se tempo para isso porque tinham mais prazer em fazer bem o pequeno e secundário do que no efeito de um todo deslumbrante.

— Friedrich Nietzsche

O sucesso em qualquer atividade está correlacionado com a prática deliberada, não com capacidades inatas, como encontrou o famoso estudo do Dr. Anders Erickson (que deu origem ao mito das 10 mil horas). Embora esse esforço deliberado seja um modo especial de prática, ele ainda é prática, o que significa que sucesso está mais ligado com ralação do que com características inatas.

Peguemos o exemplo mais emblemático da hipótese do “talento”: Mozart. Aos 4 anos, já tocava piano; aos cinco, compunha suas próprias músicas. Aos 8, se apresentava em público e daí partiu numa escala enorme de produção, tendo criado centenas de obras ao longo de seus 35 anos de vida. Se esse não é talento, o que mais seria?

Bem, quando olhamos os fatos mais de perto, notamos alguns pontos interessantes:

  • O pai de Mozart foi um famoso compositor e instrumentista, que também era um bom pedagogo. Possuía interesse especial na educação musical de crianças, começando a dar aulas ao filho quando este fez 4 anos.
  • As composições do começo da carreira de Mozart não tinham sua letra, mas a do pai, que sempre as corrigia antes que qualquer pessoa pudesse vê-las. Desde os 4 anos então, Mozart morava com um professor altamente qualificado que revisava todo seu trabalho.
  • Não havia originalidade no começo de sua carreira, o que é algo comum, mas ajuda a remover a aura de prodígio. Mesmo aos 11 anos, quando escreveu os quatro primeiros concertos de pianos, nota-se um retalho de outros grandes nomes da época.
  • A primeira obra de arte verdadeira veio aos 21 anos, quando ele compôs o famoso “Concerto para Piano Nº 9”. A essa altura, ele já havia acumulado 17 anos de prático sob a mentoria de um professor altamente qualificado que morava com ele.

Embora tudo isso não retire o mérito dos feitos de Mozart, certamente tira o mérito da explicação em termos de talento natural ou prodígio. Qualquer grande exemplo histórico de “gênio” que você mencionar, afirmo com convicção que é uma história contada pela metade e que, na realidade, o esforço foi o maior responsável por seus feitos.

Como, então, descobrir sua vocação?

Entre os vários seres possíveis que nos habitam, cada um de nós sempre encontra aquele que é o mais genuíno e autêntico. A voz que o convoca para esse ser legítimo é o que denominamos “vocação”. Mas a maioria das pessoas se empenha em silenciar a voz da vocação e se recusa a ouvi-la. Consegue gerar ruído dentro de si mesmas (…) distrair a própria atenção a fim de não ouvi-la; e se iludem ao substituir o eu genuíno por uma vida falsa.

— José Ortega Y Gasset

1. Estratégia da Inclinação Primordial

A eterna busca interna pela vocação

Ideia: Retorno às origens.

Um dos grandes problemas em crescer numa sociedade complexa é que nossa essência é moldada enquanto crescemos para que funcionemos dentro do sistema. Não é algo maléfico nem muitas vezes intencional, mas seus pais, familiares e professores moldam-no para caber nos espaços disponíveis.

O que antes era uma paixão por desenho é deixada de lado por não ser uma atividade  que vá levar à obtenção de um bom emprego. A vontade de cantar? A paixão por plantas? A energia indescritível que subir em um tatame despertava? Tudo isso deixado de lado em busca de caminhos tradicionais.

A estratégia da inclinação primordial se baseia em buscar na sua infância por desejos puros, não contaminados pelas crenças que você absorveu enquanto amadurecia. A chave é buscar dentro de si mesmo, em sua memórias, por situações em que você se sentiu diferente, excitado, com brilho nos olhos diante de algo ou alguma coisa.  É algo que pode levar semanas, enquanto você visita as memórias mais importantes e re-experimenta as atividades, mas tem boas chances de render frutos. Pode ter sido:

  • Um objeto, como no caso de Einstein, que aos 5 anos ganhou uma bússola do pai, despertando uma fagulha que expandiu em seu interesse pela física. No caso de Marie Curie, foram os equipamentos do laboratório do pai, quando os viu pela primeira vez aos quatro anos, que imprimiram uma fascínio em sua imaginação que veio a crescer até uma paixão pela ciência experimental.
  • Uma atividade que despertou a sensação de poder, como no caso de Martha Graham. Ainda jovem, sentia-se muito frustrada pela incapacidade de se comunicar plenamente com as pessoas a sua volta. Até assistir a um espetáculo de dança e se conectar profundamente com aquele modo de expressão.
  • Algo na cultura, como no caso de Daniel Everett, antropólogo e linguista contemporâneo. Ao crescer em uma região rural do EUA que fazia fronteira com o México, ficou fascinado com o contato com a cultura mexicana: a linguagem, o modo de relacionamento entre os trabalhadores que encontrava, a cultura, todo aquele universo.
  • O encontro com um Mestre, como foi com John Coltrane. Em sua juventude, sentia-se estranho e deslocado, com anseios que não conseguia suprir. Investia sua energia no aprendizado de saxofone como atividade paralela, até ir a um concerto de Charlie Parker, cujo som do saxofone lhe causou uma impressão muito forte. Dali em diante, cresceu com Charlie em vistas e passou a expressar sua singularidades pela música.
“Essas atrações da infância são difíceis de expressar em palavras e são mais como sensações — o deslumbramento, o prazer dos sentidos, o sentimento de poder, a exarcebação da consciência. É importante reconhecer essas inclinações pré-verbais porque são indícios claros de uma atração não contaminada pelos desejos de outras pessoas” — Robert Greene, Maestria.

2. Estratégia Darwiniana

passarinhos beira mar

Ideia: Ocupe o nicho perfeito.

O mundo profissional, tal como ele existe hoje, é similar a um sistema ecológico: existem certas posições em várias hierarquias e vários seres competindo por elas. Conforme vimos, com a redução no número de posições disponíveis graças ao aumento da eficiência provinda da revolução tecnológica e com o crescimento do número de pessoas disputando essas posições, a competição chegou a níveis alarmantes. Conseguir seu espaço no mercado nunca foi tão difícil.

Olhando por outra perspectiva, no entanto, o cenário assume um viés positivo: em uma época de muitas mudanças, criar novos espaços nesse sistema ecológico é relativamente fácil. E a vantagem de criar sua profissão ao invés de disputar uma já existente é, claro, a falta de competição.

A pergunta que fica, então, é como criar seu espaço no ambiente capitalista?

Nossa conversa é sobre criar sua vocação e chegou ao emprego perfeito; essas duas coisas têm tudo a ver. A ideia de ocupar o nicho perfeito é que você, como ser humano, possui interesses únicos; combinar esses interesses em algo inédito é uma estratégia para trabalhar e desenvolver a área que corresponde a sua vocação, mesmo que esse campo de estudo/trabalho não exista ainda.

Um exemplo prático desse processo foi o desenvolvimento do S. Ramachandran. Durante sua infância na Índia na década de 50, nunca se interessou pelas atividades típicas de crianças de sua idade, gostava mesmo de ler sobre ciências. Costumava vaguear pela praia e logo a variedade de conchas depositadas na areai chamou sua atenção e passou a colecioná-las. Com o tempo, se sentiu atraído pelas variedades mais estranhas de moluscos; aquilo era o que lhe causava fascínio.

Com o passar dos anos, seu interesse pelo incomum em várias áreas do conhecimento só cresceu, como reações químicas curiosas, anomalias  no corpo humano e afins. Seu pai o convenceu a ir para faculdade de Medicina no EUA onde descobriu o fantástico campo das ilusões óticas e distorções naturais da visão humana. Graduou-se e buscou aprofundamento na área da neurociência visual. Depois de conseguir seu PhD, foi contratado para trabalhar em  outra universidade de prestígio, onde seu interesse já expandiu para anomalias no próprio cérebro. Ele voltou-se para a nova área de estudo e hoje é um dos pesquisadores líderes em nossa compreensão do fenômeno dos membros fantasmas.

Para aplicar essa estratégia em sua vida e encontrar seu nicho, há dois caminhos:

  • Iniciar em uma área de estudo com a qual você tenha afinidade, mesmo que não seja exatamente o que você queira. Uma vez dentro e conhecendo melhor todos os setores existentes e os campos nascentes, buscar áreas cada vez mais estreitas que o interessem, de modo que você se posicione no topo de um campo bem restrito que é completamente alinhado com sua vocação.
  • Identificar de início seus dois maiores interesses. Mergulhar de cabeça em um deles, aprofundar-se na área e partir em busca do segundo. A seguir, você combina os dois de uma maneira única, já que possui uma visão privilegiada de ambos.

As duas abordagens para a estratégia funcionam bem; a primeira é mais voltada para quem possui um perfil mais explorador e a segunda para quem já tem interesses definidos mas não vê como combiná-los (pois não mergulhou em ambos para estudá-los por dentro).

3. Estratégia da Rebelião grades e pôr do sol

Ideia: Evite o caminho falso

Escolher a jornada com base em motivos errados é um erro bastante comum em uma sociedade que impõe valores profissionais fortes como a Ocidental. Além disso, há toda a preocupação com a estabilidade e a geração de renda.

Uma das coisas que queria ter aprendido antes dos 20 é que nossos pais sabem o que é bom para nós, mas apenas nós mesmos sabemos o que é melhor. Eles, usualmente os maiores responsáveis por nos empurrar para carreiras tradicionais e seguras, estão bem intencionados, mas não nos conhecem pelo lado de dentro. Eles não sofrem da mesma maneira que nós quando somos obrigados a fazer algo que desgostamos, por isso subestimam o quão ruim é estar em uma carreira por causa do dinheiro.

A estratégia da rebelião está bem relacionada com a liberação de todos os anseios que estavam guardados devido à opressão externa e esses instintos normalmente apontam em qual direção devemos seguir para perserguir nossa vocação.

Mozart, o próprio gênio do qual estávamos falando agora há pouco, foi um daqueles que precisou quebrar as amarras do pai e da sociedade para descobrir seu próprio caminho. Desde cedo, Mozart, o pai e a irmã viajam pela Europa de corte em corte realizando apresentações e sustentando a família. Como ele devia tudo ao pai, se submetia de modo contente ao trabalho.

Ao entrar na adolescência, contudo, uma inquietação começou a surgir: havia muita energia criativa borbulhando dentro dele que não estava sendo expressada por causa de seu trabalho. Ao se apresentar nas cortes, ele precisava tocar o que as pessoas queriam ouvir, normalmente músicas mais tradicionais e, ao seu ponto de vista, sem graça. Ele queria criar, experimentar, trabalhar a capacidade criativa com a qual ele fora “abençoado”. Aos 24 anos, ele finalmente se rompeu com o pai, ao invés de obter um emprego fixo em uma corte como aquele queria. Ele seguiu dando voz a sua vocação, compondo, criando e inovando na música, até conseguir respeito por suas composições e viver por conta própria.

Para aplicar a rebelião em sua vida, portanto, você precisa busca quebrar as correntes que o prendem e sentir na direção em que a frustração está apontando. O que você faria o tempo inteiro se pudesse? O que realmente traz brilho nos olhos?

4. Estratégia da Adaptação

caranguejo pequeno

Ideia: Descarte o passado.

Até que algo “clique” em sua mente e você saiba, lá no fundo, que encontrou um caminho que realmente o faça sentir vivo, a exploração de sua vocação é algo constante. Muitas vezes, é preciso descartar o que você sempre fez a fim de abrir mão para caminhos novos e mais próximos do que você realmente gosta.

Freddie Roach, um dos treinadores de boxes mais bem sucedidos da história, é um bom exemplo disso. O pai havia sido lutador profissional e a mãe, árbitra de boxe. Começou a treinar aos 6 anos de idade, mas ao chegar aos 15 já estava esgotado. Procurava cada vez mais desculpas para não treinar, até que a mãe fez uma crítica a ele, dizendo-o que não sabia lutar e que não era bom naquilo. Isso serviu de combustível para sua motivação e ele dobrou o esforço nos treinamentos.

Começou a se destacar e, aos 18 anos, passou a ser treinado por um Eddie Futch,um coach legendário em Las Vegas. Progrediu na carreira, teve alguns bons resultados, mas ele notou que não era excelente. Em poucos anos, seu coach sugeriu que era a hora da aposentadoria. Fred ficou completamente perdido, pois sua vida inteira tinha sido a rotina de lutador de box e agora não sabia mais o que fazer. Conseguiu um emprego no telemarketing e sua vida espiralou: começou a beber muito e a remoer a carreira que largou como atleta.

Mesmo assim, voltou a frequentar o estúdio de treino, para ficar perto daquele único ambiente com o qual se sentia à vontade. Por acaso, começou a ajudar alguns lutadores que não estavam recebendo muita atenção do Eddie. Aos poucos, começou a voltar todo dia ao ginásio e a trabalhar de graça como coach. Os boxeadores que ele ajudava começaram a ganhar e ter bastante destaque no esporte, de modo que Freddie cresceu cada vez mais como técnico até abrir sua própria academia. Ele seguiu daí para ser o maior treinador de boxe do século passado.

Tudo isso só foi possível porque, em algum momento, Freddie descartou seu passado como atleta e pode ter contato com sua verdadeira paixão: o boxe. A estratégia das lutas, as preparações, a análise dos adversários, ele conseguiu um jeito de viver em contato com tudo isso, expandir sua vocação, sem precisar ser um atleta em si (algo que ele tentou e não conseguiu). Na sua vida, a ideia é a mesma. Use cada atividade como instrumento para ajudá-lo a “sentir” melhor em que direção seguir e não tenha medo de descartá-las quando chegar a hora.

Como Desenvolver Sua Vocação Sem Precisar Pedir Demissão

low rider playing in the background

A transição não precisa ser brusca. Eu sei que você já deve estar pensando “mas e se minha vocação for realmente atividade-X (que não dá dinheiro), o que eu faço para me sustentar? Eu preciso ganhar dinheiro ou morro de fome!”. O nosso papo hoje não é sobre como ganhar dinheiro com sua vocação, mas como descobri-la em primeiro lugar. A discussão sobre geração de renda é bem ampla e abriremos em outro momento. Por ora, concordo que não vivemos em um mundo ideal. Se você não tem uma situação confortável hoje, não é possível largar tudo para seguir sua vocação. Na realidade, nem deveria!

Todas as atividades que realizamos nos ensina algo útil sobre a vida, contanto que procuremos; algo que virá a adicionar seu trabalho uma vez que você faça transição para aquilo que é sua vocação. Por exemplo, digamos que você é advogado hoje e descobriu que na realidade é apaixonado por livros e quer ser um escritor.

Não se trata de largar o emprego e ir para seu quarto escrever uma novela.Você começa um processo gradual de transição entre os dois universos. Dentro da advocacia, há espaço para desenvolvimento de escrita de algum modo? Sim, há muita criação de textos mesmo para um advogado. Você pode ir mudando de direção dentro da  área atual para ficar mais próximo do que realmente gosta. E mesmo o dia a dia do advogado ensina habilidades úteis para um escritor, como pensamento claro, boa argumentação,  facilidade de transformar conceitos abstratos em material concreto.

Como Robert coloca em suas entrevistas, aquelas 10mil horas necessárias para virar expert em alguma atividade na realidade se somam ao longo de tudo o que você fez para chegar até onde chegou. Se você aprender a enxergar crescimento onde quer que esteja, pode usar a situação atual para crescer na direção de sua vocação. No caso de nosso amigo advogado, ele já teria suas 2000 ou 3000 horas de prática por ter adquirido habilidades valiosas no caminho. Você nunca parte do zero.

Conclusão – Recapitulando

Ufa, essa discussão foi bem aprofundada.

A forma de colocar em prática, como vimos, não precisa ser brusca. Mas antes de colocar a mão na massa, detalhar esses fundamentos foi parte importante do processo.

“As pessoas têm medo de não fazer dinheiro e se isso vai dominar sua vida, então vai ser muito difícil fazer o que estou propondo aqui. Quer dizer, eu entendo se você é mais velho ou se tem filhos para prover e contas para pagar etc. Mas se você está viciado à folha de pagamento, não pode se livrar dela e você tem muito medo então nem mesmo tente. Aí é o lugar onde você vai estar e este é um problema para toda a vida que você tem. Mas se você for na direção oposta […] aprender, largar, viver com o mínimo por um tempo e meio que ficar no limite, e fazer as coisas que estou dizendo, como ouvir a si mesmo, o que você gosta, o que frustra você, o que o excita…

Toda vez, mais tarde na vida, quando você se encontrar em um beco sem saída e isso acontece como todo mundo, ainda acontece comigo, voce será capaz de fazer o que eu falo. E dizer “Tudo bem, agora é hora de dar um paso atrás, olhar para mim mesmo, e então se eu precisar levar um corte salarial, eu consigo, porque eu já levei antes na vida e não foi tão ruim quanto eu pensei”.

Essas são habilidades para a vida que você está desenvolvendo. Fazer dinheiro não é a única habilidade importante nesse mundo, há habilidades para vida, quando você sabe como gerenciar com certas situações como mudanças na vida, como ter que viver com menos dinheiro e coisas do gênero.”

— Robert Greene

RESUMO EM PONTOS

  1. O mercado de trabalho está cada vez mais competitivo.
  2. A situação não vai melhorar, com 47% dos empregos automatizados em 20 anos.
  3. O modo tradicional (faculdade+empregos) não funciona como antigamente.
  4. Há o fator de frustração em não fazer aquilo que se ama que as pessoas desconsideram (até sofrer a respeito).
  5. Vocação existe se pensarmos em termos do quão única cada pessoa é.
  6. Talento não é nem de perto importante como se imagina e pode ser esquecido.
  7. O único jeito de ser bem sucedido em qualquer área é com muito esforço e prática deliberada.
  8. Todo o ruído das crenças que permeiam a sociedade só atrapalha que você ouça o que realmente ama.
  9. O retorno à origem se trata de buscar na sua infância atividades que proporcionavam brilhos nos olhos e re-explorá-las hoje.
  10. Essa inclinação primordial pode estar relacionada com um objeto, uma atividade, algo na cultura ou um encontro com um mestre.
  11. Ocupar o nicho perfeito se trata de criar espaços profissionais únicos que se alinhem com sua vocação, onde você encontre menos concorrência e mais abundância.
  12. Essa estratégia Darwiniana pode ser aplicada buscando áreas cada vez mais restritas dentro de um campo ou combinando dois campos diferentes em um só.
  13. Evitar o caminho falso faz referência a se rebelar contra as imposições externas e prestar atenção para qual direção sua frustração contida o leva.
  14. Descartar o passado é  essencial para ficar cada vez mais perto de sua verdadeira vocação e pode criar novas formas de entrar em contato com o que você gosta.
  15. Você não deve largar tudo agora que iniciou essa busca pela vocação.
  16. O processo de transição do agora para o trabalho na vocação é gradual, não importa onde você esteja, pode estar aprendendo algo útil se procurar.
  17. As famosas 10mil horas se somam ao longo de todas as atividades que você fez na vida para contribuir para sua vocação, então busque aprender onde está.
  18. Fazer dinheiro é importante, mas há outras habilidades igualmente ou mais relevantes que você deve aprender na vida.
  19. Não seja dependente de salários e busque equilíbrio para ter mais liberdade a fim de procurar sua vocação.

Testes Práticos com base científica para investigar suas habilidades (e potenciais vocações)

O que fazer depois de ler esse texto?

Minha recomendação é você tirar um tempo para pensar nas ideias que tratamos aqui. É um material bem denso, que precisa ser digerido aos poucos. Mais tarde, volte ao texto, tire notas, coloque as estratégias em prática aos poucos.

O próximo texto do tema vai trazer três testes com base científica que ajudam no processo de “autoconhecimento”, acelerando a investigação de suas habilidades.

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E claro, por favor, compartilhe com quem precisa ler. Espero que o maior número de pessoas se beneficie desse conteúdo, pelo menos tanto quanto Eduardo e eu nos beneficiamos :)

Para fechar, uma das minhas citações favoritas.

“A miséria que o oprime não decorre de sua profissão, mas de você mesmo! Quem no mundo não acharia sua situação intolerável se escolhesse um ofício, uma arte, aliás, qualquer estilo de vida, sem experimentar um chamamento interior? Quem quer que nasça com um talento, ou para um talento, certamente o considerará a mais agradável das ocupações! Tudo na Terra tem seu lado difícil. Só algum impulso interior – o prazer, o amor – pode nos ajudar a superar os obstáculos, a desbravar o caminho e a nos erguer acima do círculo estreito em que outros arrastam suas existências angustiadas e miseráveis”

— Goethe

 

 

Paulo Ribeiro

Autor, empreendedor, amante do aprendizado e um estrategista moderno. Escreve sobre estratégias para viver uma vida melhor e mais significativa.

 

13 thoughts on “4 Estratégias Para Encontrar Sua Vocação (Utilizadas Por Grandes Nomes da História)

  1. Excelente texto Paulo! Sou extremamente grato por compartilhares conosco este site e insights! Namaste!

  2. É sempre fascinante encontrar algo que te permita escapar do raciocínio estandardizado ao qual somos diariamente acometidos pela cultura de massa e pelas pressões sociais. Esse texto reflete bem o que eu tento dizer. Nossa formação mental é preponderantemente baseada nas influências a que somos expostos em todo o decorrer da vida. E muitas vezes é difícil admitir que vivemos a partir de conceitos padronizados que não condizem com as nossas próprias definições de felicidade e satisfação. Obrigado por esse estímulo e parabéns pelo excelente trabalho!

  3. Cara que texto incrível ! Terminei a leitura transformado, muito obrigado, me ajudou demais e o melhor é que você colocou “dicas práticas” muitos textos eu termino lendo e fico perdido sem saber por onde começar você disse exatamente o que eu precisava valeu cara, por esse seu esforço de trazer um conhecimento tão grande ! Abraços , bom trabalho.

  4. O texto está muito bem feito. Imagino o trabalho desprendido. Parabéns.

    No entanto, é muito controverso afirmar a inexistência de talentos inatos. Você argumentou com pouca base científica, o pior exemplo possível e um aforismo de Nietzsche que não ajudou muita coisa.

    Já é constatação de AO MENOS três grandes áreas com incidências de crianças prodígios: Matemática (Terence Tao, por exemplo), música (Mozart, por exemplo) e xadrez (Samuel Rechevsky, por exemplo).

    Dos três citados, Mozart foi o mais “agraciado pelo acaso” por, além de ter um talento natural, ter também um pai talentoso tanto na música quando como pedagogo.

    Prodígios são raros, mas existem. Pessoas que, simplesmente, nasceram naturalmente boas em uma determinada coisa.

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