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Há alguns dias, um leitor enviou a seguinte pergunta.

Título: Dedicação tira defasagem?

No campo das ações é onde tenho mais defasagem. Comecei a Universidade pública com 23 anos e terminei com 30 (motivo: reprovas, conflitos internos). Ou seja, apesar da boa intenção em desejar progredir na vida, meu desempenho foi ineficiente. Com isso, minha carreira como um todo é atrasada.

Então gostaria de saber a opinião de vocês sobre o título deste email e as questões de atraso/defasagem, principalmente na carreira e estudos formais. Vale a pena correr atrás?

No fundo, gostaria de sentir de novo aquela sensação de alta potência de agir (do Prof. Clóvis de Barros Filho); ser mais competitiva nos ambientes em que passo, seja profissionalmente ou socialmente. Será possível?

Hoje com 31 quero (planejo) ser uma pessoa de sucesso aos 40 anos – leia sucesso: maturidade, clareza de pensamentos, alto intelecto, contribuição real para a sociedade, independência financeira, família e amigos.

A resposta segue abaixo, editada levemente para ficar mais clara.

Re: Dedicação tira defasagem (Ou: será que é tarde demais?)

Oi, tudo bem?

Algumas coisas me veem à cabeça ao ler teu email. Vou abordar alguns pontos, siga com o que fizer mais sentido para você.

Sobre o tempo necessário para mudar de carreira. Você pode chegar a um bom emprego, com salário atraente, na maioria das áreas com 3~5 anos de trabalho focado (e inteligente). Talvez você não consiga no campo atual – seja porque é um mercado decadente (ex: radio/TV) ou altamente regulamentado (advocacia/medicina). Mas, para a maioria das áreas, 5 anos é uma timeline razoável.

Não tente prever 100% o futuro – a cada década você pode se reinventar. Você pode pensar como carreira engajamentos de 5 a 10 anos em uma área diferente e construção de habilidades profissionais lá. A maior parte das pessoas sabe que ninguém precisa ficar em um mesmo emprego para o resto da vida, mas poucas pessoas pensam na implicação prática disso. No seu caso, por exemplo, isso significa que você pode engajar em pelo menos 3 carreiras diferentes antes de desacelerar aos 60. No macro, sua vida acabou de começar, então respira fundo.

Sobre comparações de vida. Sua vida teve várias razões que te levou a entrar na Universidade com 23 anos. Depois, muitas razões que levaram a terminar com 30. Depois que passamos dos 15 anos, faz pouco sentido comparar nossa vida a das outras pessoas (que não passaram pelo mesmo que você). Eu sei, fácil falar, difícil fazer, mas quanto menos a gente faz essa comparação em texto, fala ou pensamento, menos vamos sentir a frustração. Cada vida adulta é peculiar de seu modo, por isso uma expectativa padronizada não é saudável para seu desenvolvimento.

Por outro lado, se apresse. Seu email comunica alguém bastante perspicaz. Você não precisa que te diga que sim, dedicação tira defasagem. Contudo, imagino que você tenha se perguntado: “eu me dediquei nos últimos 10 anos e não andei rápido do jeito que esperava – será que se eu me dedicar mais 10 anos vou ficar na mesma?”

A resposta para essa pergunta é ao mesmo tempo assustadora e libertadora. Sim, se você seguir o mesmo script, vai obter os mesmos resultados. Para você alcançar o que deseja, vai precisar tomar ações radicalmente diferentes. Pode ser preciso abandonar a carreira atual, se for um beco sem saída. Ou ter que mudar de cidade. Ou começar um segundo emprego. Você vai ter que sacrificar bastante coisa para chegar lá. Vai ser difícil, mas vai valer a pena. É assim que funciona com a vida no geral. Tem bastante conhecimento tático pelo site, se tiver alguma dúvida específica, pode contar comigo.

Pressão para estabelecer família está na equação? Uma questão relevante (e não sei quão consciente) é a janela onde as mulheres normalmente pensam em família. Como está o progresso nessa frente? É característica do desenvolvimento humano que as mulheres precisam ter os grandes blocos da vida no lugar mais rápido que os homens e isso causa bastante pressão em torno dessa idade. Só um lembrete de algo a não ignorar e tratar/reorganizar consigo de modo consciente.

Potência de agir. Este conceito do Clóvis de Barros Filho é ótimo. Existe um texto meu saindo no Papo de Homem nos próximos dias sobre o tema, vale você checar lá. Basicamente, o que descobri nos últimos anos que essa sensação surge quando estamos descobrindo mais sobre nós mesmos e sendo útil de alguma forma concreta.

Por exemplo, na minha vida, embora tenha formação de engenharia química, comecei me sentindo útil quando estava ajudando uma ONG conseguir mais participantes, usando marketing para isso. Não por ser trabalho voluntário, necessariamente, mas por ser trabalho útil e concreto. Isso levou a me envolver com outro projeto voluntário, depois montei uma empresa, depois entrei em um emprego tradicional com marketing… e daí se desenrolou foi.  A potência veio mais de investigar maneiras de ser útil do que de um planejamento de longo prazo em que eu sabia exatamente minha profissão com 20 anos de antecedência.

No geral, é isso. Algo mais em que posso te ajudar para colocar a mão na massa?

Abraços


Tem dúvidas, gostaria de fazer comentários ou apenas trocar uma idea? Manda email para contato arroba…