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Muito e discute sobre a importância de ter uma visão, uma grande estratégia para a vida. Ao olhar de perto a diferença entre estratégia e tática, fica claro como somos pouco efetivos em alcançar objetivos se estamos preso no inferno tático. É essencial que consigamos dar um zoom “para fora” e enxergar onde estamos em perspectiva.

Claro, você não precisa revisar sua direção de vida toda semana. Quanto mais abstrato o nível de consideração, menos frequente deve ser feita. Caso contrário, passaríamos o tempo todo refletindo e duvidando dos nossos planos, o que seria péssimo para colocar as coisas em prática (e aprender com experiência).

Mas sim, você precisa revisar seu norte pelo menos anualmente. Não só para planejar melhor, mas também para tomar decisões mais facilmente. De modo similar aos seus valores, sua visão de vida (ou norte, ou grande estratégia) ajuda a filtrar opções óbvias no processo decisório. Como Vicente Falconi colocou bem:

“As decisões, na verdade, são fáceis, desde que a decisão que você tome esteja em linha com seus valores, não tem dificuldade, nenhuma dificuldade. As situações se apresentam e você naturalmente vai escoar para aquilo que tem algo mais alinhado com seus valores e o resto você rejeita naturalmente. Por isso é que os valores são tão importantes. […] Porque se você tem os valores certos, as decisões são muito fáceis. Não tem decisão difícil. Decisão difícil é aquela que você toma contra seus valores, aí é que fica dureza. […] Tem gente que só toma decisões erradas na vida é porque os valores estão errados.”

Na primeira metade da década, por exemplo, meu norte estava dominado pelo arroubo do jovem que se acha especial: queria ser milionário antes dos 25 – por questões arbitrárias e vaidade. Essa visão de futuro me levou a ser menos efetivo no dia a dia e me sabotar em vários momentos.

É possível argumentar que esse processo faz parte da autorrealização como adulto e, desse modo, estamos todos fadados a repetir os mesmos erros e lições. Talvez. Mas isso é caminhar bem perto da estrada que diz que não vale aprender proativamente, já que tudo vem de experiência pessoal mesmo. E não seguimos por aquele caminho. Todo aprendizado tem alguma validade. Ainda que você caia de todo jeito, pelo menos pode ajudar aliviar a queda. Para meu eu jovem, do jeito que vejo, faltava conhecimento da importância de como manter os pés no chão.

Sua visão do que é uma vida perfeita

A forma como seus grandes objetivos se manifestam está mais próxima da visão de um negócio do que de resoluções de ano novo, por exemplo. Sua visão não será “poupar mais dinheiro”, ou “ficar em forma”, ou “focar no meu negócio para contratar mais x pessoas”.

Para torná-la palpável, aprendi com Taylor Pearson o exercício de descrever como será um dia ideal para você daqui a 25 anos. Que horas você vai acordar, com quem, onde vive, o que vai fazer durante o dia…

Daí, conforme você muda como pessoa, sua visão macro muda, mas ela não precisa ser revisada toda semana – gosto de olhar para a minha anualmente. A mais recente que criei foi há quase 2 anos e já sinto que hoje não descreve meu futuro ideal – preciso sentar para atualizá-la.

Uma vez que sua visão esteja configurada, respeitando as limitações saudáveis, fica mais fácil tomar as decisões do dia a dia porque seu futuro desejado serve como norte. Ao invés de se debater infinitamente entre as milhares de opções a sua frente, a pergunta se torna “qual opção me deixa mais próximo da minha visão?”.

Muito estresse da vida é reduzido por conta desse direcionamento. O que nos traz ao seguinte ponto: como saber se sua visão de vida é saudável?

Afinal de contas, nem todo mundo pode jogar no Barcelona, por exemplo. No mundo real, existem restrições sobre aquilo que podemos escolher. Se eu tivesse algum direcionamento, lá atrás, não teria me perdido andando em círculos tentando ser milionário antes dos 25.

O que considerar na hora de refletir sobre sua grande estratégia de vida?

Limitação 1: Tamanho

Se você escolher algo grande demais, vai ser intimidador, não estimulante. Reduza o escopo até que seja tolerável. Você não precisa consertar tudo de uma vez, comece pelas coisas que você consegue consertar.

Aliás, não precisa nem se martirizar – conserte apenas o que você quer consertar. Só em fazer o que você gostaria e que sabe que precisa ser feito sua vida (e a vida das pessoas a sua volta) já ficará perceptivamente melhor. Jordan Peterson resume bem: não precisa sair por aí querendo mudar o mundo – comece arrumando seu quarto.

Depois que você expandir sua zona de competência, naturalmente sua visão vai crescendo e você será capaz de alcançar feitos maiores – mas nunca saindo do zero para 100. Por isso, revise o tamanho.

Limitação 2: Abstração

Temos a tendência de nos desviar e fazer idiotices uma vez que estamos agindo em um nível abstrato demais, como “mudar o mundo”. Nassim Taleb discute isso em seu novo livro, Skin in the Game. Sem ter o pé no chão e uma relação concreta com seu trabalho-com sua missão, você não vai aprender com a experiência e vai terminar causando mais dano do que benefício.

“… você não pode separar nada do contato com o chão. E o contato com o mundo real é feito via pele no jogo – tenha uma exposição ao mundo real e pague o preço pelas suas consequências, boas ou ruins”

Caso contrário, nós nos tornamos pessoas…

“que são delirantes, literalmente mentalmente perturbadas, simplesmente porque eles nunca tiveram que pagar pelas consequências de seus atos, repetindo slogans modernistas sem nenhuma profundidade. Em geral, quando você ouve alguém invocando noções modernistas abstratas, você pode presumir que eles têm alguma educação (mas não o suficiente ou na disciplina errada) e pouca prestação de contas”

Um exemplo concreto: os analistas de guerra que foram para a mídia sugerir a invasão do Estados Unidos ao Iraque. Ou à Síria. Esses “pensadores” podem achar que estão mudando o mundo, mas claramente não entendem as dinâmicas complexas do dia a dia dos dois países (alguns nunca viveram lá). Recomendam soluções que parecem boa no papel, o governo ouve uma população movida pela mídia, mas o esforço de intervenção repetidas vezes não funciona.

E nossos analistas de guerra? Voltam aos jornais recomendar o mesmo padrão de intervenção, porque eles não sofrem pela consequência dos próprios erros (como, digamos, tendo filhos mortes em combate).

Por isso, ao escolher nosso norte de vida, é essencial pegarmos algo pés no chão e fugir de planos abstratos. Para tanto, podemos agir localmente e correr riscos pessoais pelo que acreditamos.

No caso de reduzir o escopo, escolher missões de vida com esfera local de influência faz diferença. Por exemplo, ao invés de levantar fundos para “uma organização que reune pensadores para resolver o problema da fome”, melhor trabalhar como voluntário em um abrigo local, de preferência no seu bairro. Ou ainda, focar em criar uma família saudável e feliz é um objetivo louvável, ainda que seja algo “fora de moda” para a geração atual.

Outra forma de evitar a abstração é correr riscos por aquilo que você faz. Idealmente, investir seu dinheiro e suor no que você acredita. Mesmo investir sua reputação já é suficiente para tornar a experiência mais real e te ajudar a aprender com os erros.

Limitação 3: Continuidade

A vida é um jogo infinito, conforme discutido no livro Jogos Finitos e Infinitos, do James P Carse. A ideia é simples e ajuda a direcionar qual estratégia você vai aplicar dependendo do contexto em que esteja.

Jogos finitos são aqueles com regras claras de engajamento e nos quais pode se observar um ganhador ou perdedor. Esta categoria é bem importante, já que competição ajuda a gerar inovação e avanço na sociedade, então ter vencedores e perdedores em alguns contextos faz parte.

Jogos infinitos, por sua vez, são o contrário. Não existem regras claras, o “tempo” da partida do jogo nunca acaba e é impossível apontar vencedores e perdedores. O objetivo no jogo infinito é continuar jogando, só perde quem para.

Um dos grandes erros em nossa cultura é imaginar que a vida é um jogo finito, ou seja, que podemos “vencer na vida”, como discute o Alberto Brandão.

“Fomos criados por nossos pais com a crença de que precisamos vencer na vida. Se não passar de ano, é um perdedor. Mas se for aprovado em medicina, certamente é um vencedor. Raramente te lembram que, se acontecer algum problema no caminho e dessa vez não der certo, ano que vem está aí. Pode até representar um pequeno atraso, mas ninguém vai morrer por conta disso, a bola continua em campo.

Ter uma figura definitiva, seja o vencedor ou o perdedor, implica que o jogo termina naquele ponto, e como demoramos para descobrir, não é assim que a vida funciona. Depois de entrar na faculdade, uma nova rodada começa, novos problemas surgem. Um emprego ruim não significa ser um perdedor, além do mais, pode ser a porta de entrada para outras oportunidades melhores. Assumir que alguém se deu bem ou mal baseando-se num pequeno evento, num curto espaço de tempo, é simplificar demais algo muito mais complexo.”

Dado este contexto, escolher um objetivo de vida também envolve escolher algo infinito, que permita que você continue jogando o jogo. Por isso a ideia de “viva como se fosse morrer amanhã” é tão ruim: todos estaríamos em pânico sem considerar a continuidade do jogo. Você não pode acordar amanhã e estar 100% endividado porque fez tudo que queria ontem. Ou como Ed Latimore colocou de modo mais eloquente: “A vida é curta demais para apenas ir atrás de coisas materiais, mas longa demais para viver apenas por experiências”.

Seu objetivo…

“deve ser bom para você, bom de um modo que facilita seu progresso, talvez bom para você de um jeito que também seja bom para família e para a comunidade, deve cobrir o domínio da vida como um todo”.

– Jordan Peterson

E, para quem continua perdido, um lembrete

É ok não saber qual é seu grande direcionamento estratégico.

Você não vai acordar sabendo o que quer da vida, especialmente se não faz o tipo naturalmente reflexivo. Siga construindo a si mesmo como pessoa melhor e buscando recursos – uma vez que descobrir sua visão, agradecerá seu eu do passado.