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A intuição é uma das ferramentas mais poderosas que nós, seres humanos, temos; ela nos poupa muito trabalho. Junto com todo o subconsciente, a intuição comanda tarefas que não está no nosso plano de atenção e nos ajuda a focar no que importa. Por exemplo, se você está dirigindo um carro (e já é experiente), você faz tudo no “automático”: olha o trânsito, cuida do volante, passa marchas e até conversa com o passageiro ao lado, tudo ao mesmo tempo. Isso porque seu subconsciente está te ajudando com as tarefas automáticas.

O mesmo acontece com intuição. Se começa tocar no rádio uma música, você não vai fazer uma “análise racional” da qualidade da música; você simplesmente “sente” se gosta dela ou não e muda de rádio.

Indo um pouco mais além, o fato da intuição existir tem razões evolutivas – nossos antepassados não tinham muito tempo para julgar riscos e benefícios de uma ação: se víamos uma presa em grupo, tínhamos que julgar na hora se valeria a pena caçá-la e correr o risco de ser atacado. Esse mecanismo de decisão rápida, de análise de riscos x benefícios, terminou embutido em nosso cérebro e nos acompanha até hoje. O problema é que ele é muito bom para decisões sobre tópicos concretos (qual sobremesa escolher, qual roupa vestir, caçar ou não caçar), mas muito ruim para temas abstratos (jogar na loteria, decidir melhor investimento).

Por exemplo, cientistas fizeram um estudo oferecendo a pessoas chance de ganhar dinheiro. Cada uma poderia escolher entre duas tigelas, cada uma contendo grãos de feijão tradicional misturado com feijões de outras cores; para cada feijão tradicional retirado, o participante ganharia um dólar. Eles poderiam escolher entre a tigela menor, mas que continha 10% de feijões tradicional ou a maior, que continha apenas 7% de feijões vermelhos. Qual tigela você foi escolheria?

Bem, surpreendentemente, a maior parte dos participantes escolheu retirar feijões da tigela maior, embora as chances deles fossem melhor (menor espaço amostral e maior probabilidade) com a tigela menor. Quando perguntados o porquê, eles responderam que mesmo sabendo da diferença na probabilidade, eles sentiam que teriam mais chances de ganhar pegando a tigela maior (maior espaço amostral e menor probabilidade).

O problema da heurística afetada

Primeiro, o que é heurística?

Bem, de uma maneira bem simples, heurística é um procedimento prático para resolver problemas. Por exemplo, quando você vai arrumar o quarto, você tira o lixo todo e limpa tudo de uma vez ou tira o lixo e arruma móvel por móvel? Ou ainda, em um restaurante novo, você normalmente pede o prato da casa ou escolhe algo com nome diferente? Pronto, isso são heurísticas e é normal que variem de pessoa para pessoa.

Bem, há algumas heurísticas observadas em todos os seres humanos, derivadas de nossa evolução como espécie. E é elas que nos interessam aqui. Como muitas são inconscientes, elas parecem para nós como intuição. Daí a relação entre intuição e heurísticas.

Em um outro estudo, psicólogos dividiram os participantes em dois grupos e cada um deles teve que opinar sobre um novo projeto de usina nuclear. Ao primeiro grupo, foram apresentados textos sobre os benefícios da planta, enquanto ao segundo foram apresentados textos falando sobre os riscos. Depois disso, eles votaram novamente de 0 a 10 sobre riscos e benefícios.

O resultado mostrou que as pessoas que leram sobre os benefícios deram notas mais altas para as plantas enquanto deram notas mais baixas aos riscos. Já quem leu sobre os riscos, de nota mais alta aos riscos e mais baixa aos benefícios.

O que isso mostra? Pessoas tendem a julgar um problema por um sentimento geral de bom ou ruim. Se elas julgam a situação como favorável, elas vão estar menos inclinadas a enxergar os riscos. Se a julgam como desfavorável, estarão menos inclinadas a observar os benefícios.

Logicamente, riscos e benefícios são duas coisas diferentes e devem ser julgadas separadamente, mas você não julga coisas logicamente. Quanto mais algo parece te beneficiar, menos arriscado parecerá de maneira geral. Quando você vê algo como bom, os problema são ofuscados. Quando você vê algo como arriscado, se torna mais difícil enxergar os benefícios.

Você não é tão esperto, David McRaney

O problema no mundo dos investimentos

Como escolher a melhor ação ou opção de investimento é algo bem abstrato, normalmente somos prejudicados quando tomamos decisões baseados na intuição. Para investimentos em específico, o problema surge quando analisamos uma opção (seja ações, cadernetas de poupança, CDB, etc.) de maneira superficial, atribuindo um sentimento geral de bom – vale investir – ou de ruim – não vale investir.

É preciso ter em mente claramente a diferença entre o retorno e o risco de nossa opção; não podemos misturar tudo em um sentimento, isso atrapalha o julgamento. Em estudo feito por Ganzach (2001), constatou-se que até mesmo analistas financeiros experientes sofrem desse problema, quando estão diante de uma opção financeira não-familiar.

O que podemos fazer a respeito?

Quando você for fazer uma escolha que envolva seu (tão suado) dinheiro, não confie muito na sua intuição; está comprovado que ela é falha. O que você precisa fazer é criar um mecanismo claro para tomar a decisão, envolvendo listar os prós e contras separadamente, falar com outras pessoas que já investiram, etc.

*Um bom lugar para começar é o texto “A Psicologia te ajudando na hora de investir“, que publiquei no Dinheirama há algumas semanas