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Rodrigo Bob é um estudante de engenharia e amigo pessoal. Recentemente, ele mergulhou de cabeça no mundo da produtividade e do meta-aprendizado, aplicando muitas coisas em sua vida. Ele está aqui para compartilhar o aprendizado e alguns resultados interessantes. Que entre o Rodrigo.

Você já se propôs uma meta que era muito importante e que te traria enormes benefícios se alcançada, mas não conseguiu alcançá-la mesmo que isso dependesse apenas do seu esforço? Quantas vezes no começo do período da faculdade você disse a si mesmo “nesse período as coisas serão diferentes, eu vou estudar regularmente, nada de estudar de véspera, vou aumentar minhas notas e ser um bom aluno!”, e no fim do semestre você se deu conta de que tudo se repetiu: mais estudo de véspera para as provas, mais viradas de noite, mais dores de cabeça?

Não importa quão boas e/ou sinceras sejam as nossas intenções: seres humanos são, em geral, péssimos em autodisciplina.

E se a sua meta for realmente importante, tanto que você queira alcançá-la não importa o quanto a sua natureza humana tente te sabotar? Existe alguma maneira de garantir que você cumprirá os seus objetivos? A mitologia Grega tem uma história que te mostra como conseguir isso.

O pacto de Ulisses

Ulisses (aquele da Odisseia) sabia que o canto das sereias levaria qualquer pessoa que o ouvisse a um estado temporário de insanidade, no qual seria impossível resistir à tentação de se juntar às sereias e pular no mar. Mesmo assim Ulisses queria ouvi-lo, pois acreditava que ele seria uma das coisas mais belas do mundo. O que ele fez?

Montou uma expedição passando por um lugar que era conhecido pela presença das sereias e estabeleceu um pacto com sua tripulação: todos os tripulantes receberam ordens de manter o curso independente do que acontecesse. Ulisses então selou os ouvidos de seus marinheiros com cera e pediu que eles o amarrassem ao mastro do navio, de modo que quando ele caísse na insanidade, fosse incapaz de se jogar ao mar. Desse modo, Ulisses e sua tripulação escaparam ilesos e Ulisses pode voltar à racionalidade posteriormente.

Herbert_James_Draper,_Ulysses_and_the_Sirens,_1909

Ulisses e as Sereias de Hebert Draper

Essa história deu origem ao termo Pacto de Ulisses, usado na medicina para denominar um acordo no qual um paciente que possa sofrer de uma doença psiquiátrica determina as diretrizes que serão tomadas para cuidar dele mesmo que posteriormente mesmo que ele seja contrário a elas.

Tá Rodrigo, mas o que isso tem a ver com as minhas metas?

Se você parar para pensar, quando você tem plena consciência do que precisa fazer para alcançar as suas metas e sabe perfeitamente que uma pequena distração, por menor que seja, se tornará uma bola de neve que te fará perder horas fazendo algo que não vai ser de maneira alguma proveitoso e mesmo assim escolhe se distrair na ilusão de que “serão só cinco minutos”, você não está sendo burro, nem idiota, nem ficou maluco. Você foi enfeitiçado pelo canto das sereias.

É o que acontece quando você sabe que uma escolha será prejudicial a você, mas você faz essa escolha mesmo assim, atraído pelo pequeno momento de felicidade (ou descanso, ou tranquilidade ou qualquer outra coisa que te faça achar aquela atividade mais atraente do que fazer algo produtivo) que ela te proporcionará. E você precisa de alguém que te amarre ao mastro da sanidade para manter o seu foco. Tá esse post já está ficando metafórico demais: Vamos ao que interessa.

Estabelecendo Apostas

Antes de começar com o que interessa, uma frase inspiradora do filósofo, escultor e dramaturgo romano Sêneca:

“Não é porque certas coisas são difíceis que nós não ousamos. É justamente porque não ousamos que tais coisas são difíceis.”

Se sentiu inspirado? Então vamos lá. Pesquisas do Centro para Ciência Social Experimental, na Universidade de Nova Iorque, mostraram que a aversão à perda é um fator motivador consideravelmente mais efetivo do que a possibilidade de ganho. Como você pode usar isso a seu favor para alcançar suas metas?

Crie uma aversão à perda em você mesmo, tendo algo a perder. Como? Aposte. Simples assim.

Paulo já mostrou aqui, aqui e aqui que as apostas podem mesmo funcionar como um fator motivacional. Veja por exemplo o resultado de uma dessas apostas. Pense na aposta como um investimento: você investe uma quantia X em um negócio e espera que, depois de algum tempo, aquele negócio te pague o que você investiu e te renda mais alguns trocados. Pois bem, no nosso caso, o negócio é você, e o único meio para fazê-lo crescer é através do seu próprio esforço. Uma vez que você já investiu dinheiro no seu negócio, você fará de tudo para vê-lo crescendo e prosperando.

Um Exemplo Pessoal

Bom, há um pouco mais de um ano eu não era exatamente um bom aluno. Apesar de ter muita vontade de tirar boas notas e de gostar de verdade dos assuntos da maioria das cadeiras da faculdade, eu tinha o costume irritante de me jogar ao mar atraído pelo delicioso canto das sereias. Eu sempre estudava de véspera para as provas e, até o começo de 2012, nunca tinha conseguido terminar um semestre sem reprovar ao menos uma cadeira.

Eis que no começo de 2012 eu decidi que isso iria mudar. Eu me matriculei em oito disciplinas, sendo que dessas oito, quatro estavam entre as dez mais difíceis do curso segundo a opinião popular. Naquela época, eu nunca tinha estudado nada sobre aprendizado eficiente, produtividade ou motivação. Aquele período tinha tudo para ser como todos os outros, eu provavelmente teria perdido o gás antes de chegar ao meio do semestre, e com o número de cadeiras difíceis que eu tinha me matriculado,  meu índice de reprovação teria triplicado, não fosse um fato importantíssimo: uma cara veio e e me zuou.

Enquanto falava das cadeiras que tinha me matriculado para um amigo, um cara chegou e começou a fazer chacota comigo, dizendo que eu nunca conseguiria passar em todas as cadeiras naquele período e que apostaria comigo o que eu quisesse que eu reprovaria pelo menos uma disciplina. Estava estabelecida então a aposta.

Uma vez definida, as pessoas aparentemente acharam que seria uma boa oportunidade de ganhar uma picanha em um restaurante caro (o prêmio estabelecido da aposta) e umas sete ou oito pessoas entraram no desafio, apostando contra mim (minha moral tava alta hein?). O lado bom é que quatro amigos de verdade acreditaram em mim e toparam dividir o valor da picanha caso eu perdesse (não que eu fosse aceitar, mas nunca disse isso a eles).

O resultado? Naquele período eu obtive a minha maior média na faculdade até então e passei em todas as disciplinas!

Parece que apostar funciona, certo? Bem, não do jeito que eu gostaria.

Fato:a aposta foi feita no começo do período. Um período letivo de faculdade tem em geral seis meses (nesse caso, com a greve das universidades federais, esse período durou um ano). É muito difícil manter a aversão à perda em mente durante todo esse período.

O que aconteceu? Eu só me lembrei que tinha algo a perder quando as chances de perder essa aposta já tinham se tornado grandes demais.

Resultado: quatro semanas dormindo uma média de duas horas e meia por dia, galões e galões de cafeína para me manter acordado e um nível de stress que até então eu nunca tinha experimentado.  Apostas podem ser muito motivadoras sim, mas para isso elas precisam ser usadas de maneira correta. 

Mini-metas

O problema em fazer uma aposta em cima da meta em si é que geralmente as metas demoram para serem alcançadas, o que faz com que o fator perda esteja distante demais para provocar um sentimento de medo (você só perde no final, quando a meta não for alcançada)e, portanto, a aversão à perda pode ser facilmente ignorada. A melhor maneira de trabalhar com isso, a meu ver, é estabelecer mini-metas.

Uma mini-meta é um objetivo que pode ser alcançado quase instantaneamente.

Vamos dizer que você tenha uma prova cujo assunto inclui quatro capítulos, cada um com 40 páginas, daqui a três semanas. Você tem então 15 dias para estudar 160 páginas, supondo que você vai preferir descansar no fim de semana. Será necessário estudar cerca de 11 páginas por dia.  Se você montar a sua aposta em cima dessas 11 páginas diárias (o que levaria no máximo uma hora) você sentiria a possibilidade real da perda instantaneamente, o que provavelmente te manteria motivado para estudar as páginas do dia e ainda sobraria tempo para estudar para outras disciplinas ou fazer qualquer outra coisa que você queira. Parece um bom plano, certo?

Bom o fato é que eu estou aplicando esse método em mim. Estou tentando aprender alemão, e para isso estou escrevendo diariamente um blog nesse idioma e aprendendo vinte palavras/expressões novas por dia mas um pouco de gramática.

Para me manter na linha, combinei com o Paulo que se eu não enviar para ele todo o material que eu estudei no dia até às 22:00, eu tenho que pagar a ele dez reais. Uma coisa importante aqui é que uma vez que você apostará numa base diária, você precisa pensar em um valor que você conseguirá pagar caso não atinja as mini-metas todos os dias (dez reais por dia são trezentos reais por mês, o que é uma quantia bastante dolorosa para um estudante que não recebe salário como eu).

E então o que você, o que você acha, vamos partir para a ação?

Excelente ver a experiência pessoal de Rodrigo convergindo com o aprendizado que tive na minha. Realmente, o que ele chama de ‘mini-metas’ aqui eu chamo de ‘processo’ de maneira geral. Aprendizado e produtividade é boa parte isso: você pega os princípios gerais, aplica em sua vida e vai refinando até chegar onde deseja.

PARA SABER MAIS: Escrevi um site inteiro dedicado a aprender mais rápido, técnicas de meta-aprendizado e de estudo. Para ter acesso ao Círculo Secreto do Aprendizado, acesse aprendizadoacelerado.com

  • Paulo Ribeiro
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    Paulo Ribeiro

    Já te disse pessoalmente e vou repetir aqui: muito bom o texto. A combinação que eu valorizo: experiência pessoal + base científica + lições e aprendizado.

    Quero ver mais desses por aqui :D

    • Rodrigo Bob
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      Rodrigo Bob

      Valeu! Espero contribuir mais em breve! :D

  • Bruno Wolfgang Rocha
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    Bruno Wolfgang Rocha

    Estrategia muito sábia. Afinal, mantendo em si um nível muito alto de aversão a perda logo você fará de tudo para não perder. Mas no seu caso, meio que te desafiaram, quando ninguém me desafia ou coisa do tipo como posso criar, também, tal aversão?(Curioso).

    • Rodrigo Bob
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      Rodrigo Bob

      Valeu Bruno! Então cara é como eu mostrei no exemplo do aprendizado do alemão. Você não precisa esperar que alguem te desafie para criar a aversão a perda. Você mesmo pode se desafiar e se forçar a cumprir as suas metas.

      Para isso eu sugiro que Estabeleça o seu objetivo e defina cada passo que você precisa fazer para alcançá-lo (cada passo é uma mini-meta). Então procure um amigo de confiança e estabeleça um acordo com ele: determine uma hora limite, um prazo diário para mostrar para aquele amigo que você cumpriu a mini-meta daquele dia. Se você não alcançar a mini-meta, então você tem que pagar a ele a quantia do dia. Dessa forma, você terá um sentimento de aversão a perda diariamente e estará sempre motivado a correr atrás dos seus objetivos!

  • Antonio Hermano
    Responder
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    Antonio Hermano

    Excelente o texto. Já conhecia a estratégia mas a história de Ulisses me deu outra perspectiva. É sempre bom reforçar bons hábitos. =)

  • Coletânea de Recursos Para Melhoria de Vida | Estrategistas
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    Coletânea de Recursos Para Melhoria de Vida | Estrategistas

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