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Todos os países sofreram em algum grau com a crise de 2008, já que vivemos numa economia conectada. Contudo, estudar os extremos (quem mais sofreu e quem menos sofreu) nos traz mais informações do que olhar para os diversos tons de cinza. Por isso, já discutimos aqui o caso da Islândia e da Grécia; agora é a vez da Irlanda.

Sobre a Irlanda

Enquanto os homens islandeses usaram o dinheiro para consquistar lugares estrangeiros – comprando empresas-troféu na Grã-Bretanha, pedaços da Escandinávia – os homens irlandeses usaram dinheiro estrangeiro para conquistar a Irlanda. Quando ficaram sozinhos numa sala escura com uma pilha de dinheiro, os irlandeses decidiram que o que eles queriam com ela era comprar a Irlanda. Uns dos outros.

Já mencionei essa metáfora de pilha de dinheiro aqui: imagine que os países tiveram acesso a um boom de crédito no começo da década passada e sem ninguém para vigiar; o que a cada um fez com a grana foi fruto da cultura local em si. Você acha que os banqueiros Islandeses, brincando com forex e transações com moedas estrangeiras, eram loucos? Por que você não sabe do escopo do crise irlandesa.

Mesmo em uma era quando os capitalistas fizeram de tudo para destruir o capitalismo, os banqueiros irlandeses ganharam algum recorde por destruição.

Para você ter uma noção, o maior banco Irlandês, o Anglo Irish Bank, perdeu 34 bilhões de euros, quase metade de toda a quantia emprestada, 72 bilhões, basicamente a desenvolvedores de propriedades no país. Os números dos dois outros gigantes bancários não vieram à público, já que são bancos estatais; foram “encobertos” Ao fazer uma conta rápida, um economista de lá, Morgan Kelly, estimou que as perdas dos três grandes bancos totalizaram algo como 106 bilhões de euros.

E a parte mais engraçada: o governo veio a público, ainda em 2008, para garantir o pagamento das dívidas dos bancos. Sim, o governo garantiu limpar a bagunça feita pelos banqueiros. Ao que parece, os Bancos Irlandeses eram grande demais para falir; estavam tão interligados à economia que, permitir a falência, era decretar a falência do próprio governo.Aparentemente.

E no ritmo que a coleta de impostos andava, seriam necessários 4 anos da receita governamental inteira até que a dívida fosse paga.

 

De Onde Veio o Dinheiro Irlandês

Aqui o quadro geral foi bastante curioso. De um modo geral, a tendência histórica é do povo Irlandês evadindo do país, indo morar em outras partes da Europa. Entre 1845 e 1852, o país passou pela maior perda populacional da história mundial: 1,5 dos 8 milhões de habitantes emigraram. Outro milhão de habitantes morreu devido a forme e problemas relacionados.

Em 1922, com a fundação do Estado Irlandês, os economistas esperavam que o desenvolvimento fizesse com que a qualidade de vida lá se igualasse a dos vizinhos. Errrado. Na década de 1980, 1 milhão de irlandeses, numa nação com 3,2 milhões de habitantes, estava abaixo da linha de pobreza.

Daí surge a pergunta: como um país diminui o número de pobres do país de 31,25% para 6% em menos de 20 anos? Vários economistas estudaram (e ainda estudam o processo); algumas possibilidades são:

  • Eliminação das barreiras comerciais
  • Fornecimento de educação superior pública de qualidade
  • Política de baixos impostos corporativos, o que estimulou a vinda de empresas estrangeiras para o país.

A alternativa mais interessante foi oferecida por dois demógrafos em Harvard: o aumento drástico da proporção de Irlandeses na idade de trabalho comparado com os não economicamente ativos, grande parte devido ao controle de natalidade implatando pelo governo em 1979. Isso, claro, explicaria apenas parte de todo o processo; o resto continua um mistério.

Sem saber exatamente porque eles estava tão bem sucedidos, a Irlanda pode ser perdoado por não saber exatamente o que significava sucesso. Eles foram de anormalmente pobres para ricos sem vivenciar o meio termo.

A Explosão do Mercado Imobiliário e A Implosão dos Bancos

O que os Irlandeses fizeram com o dinheiro? Compraram e construiram casas. Simples assim. Assim como os Estados Unidos, a crise Irlandesa teve muito a ver com o mercado de imóveis. As dimensões que isso tomou, entretanto, é que são assustadoras:

  • Quase 25% do PIB da Irlanda vinha da construção civil, em contraste com os 10% numa economia normal
  • A Irlanda estava construindo metade do número de casa que o Reino Unido inteiro, que tinha 15x mais habitantes
  • O preço médio da moradia tinha aumentado 500% nos últimos 15 anos.

Tudo isso com um retorno cada vez menor no investimento. Com o excesso de oferta, o aluguel de casas se “desvinculou” da “regra” do aluguel ser igual a 1% do valor do imóvel. Ou seja, você podia alugar uma casa de um milhão de reais por aproximadamente 833 reais por mês.

Uma vez desvinculados o preço do imóvel e seu aluguel, o quanto ele valia a partir de então era questão apenas de especulação: alguém coloca um preço arbitrário e, se achar comprador, o negócio acontece. Com excesso de crédito, claro que apareceram compradores. E muitos.

O processo era sustentável contanto que passas sem ser questionado e ele passava ser sem questionado contanto que fosse sustentável. Michael Lewis

O pico dos empréstimos e hipotecas aconteceu no verão de 2006; depois disso, os bancos começaram a diminuir os requerimentos para o crédito, então a qualidade dos empréstimos em si começou a cair. Pouco tempo depois, algumas pessoas começaram a “se dar mal”, ou “ter pé frio”, sinal de que a bolha estava a ponto de estourar.

E estorou.


“Banco da Irlanda – Saída”

O Estopim da Crise e a Apatia do Povo Irlandês

No dia 29 de setembro de 2009, as ações dos 3 principais bancos irlandeses caíram entre 20% e 50% em apenas uma sessão de trading.

O sistema bancário é um ato de fé: ele sobrevive contanto que as pessoas acreditem que ele irá sobreviver. Michael Lewis

Como nem todo mundo acreditou nas desculpas do governo para a situação, chamando a situação de um “problema de liquidez”, a resposta de parte da população ao retirar os dinheiros das contas bancárias (reação comum numa crise) só levou à piora da situação bancária.

O curioso foi a situação do governo, que para aliviar a situação, garantiu o pagamento das dívidas dos bancos (inclusive os não estatais). Isso quer dizer que a dívida bilionária fruto do gerenciamento irresponsável dos banqueiros caiu na mão do contribuinte, que não tinha nada a ver com a situação. O pior: o governo se manteve no lugar até 2011.

Ao contrário da situação na Grécia e na Islândia que, com o romper da crise, tiveram seus governantes destituídos e substituídos, na Irlanda o partido da situação conseguiu se manter no poder. O Michael Lewis atribui isso a uma apatia natural do povo Irlandês, que tem um traço de um povo sofrido, sem muita identidade nacional na sombra da Grã-Bretanha, sempre procurando ser diferente em algo.

Qual é a lição de moral aqui?

A bolha do mercado imobiliário irlandês foi diferente da americana em vários sentidos. Não foi escondida, para começo de conversa. Não requeria muita engenhosidade financeira complicada além da compreensão de meros mortais. Também não foi cínica. Não muitos financeiros irlandeses ou gigantes do mundo imobiliário que saíram dela com um futuro. Nos EUA, os bancários caíram mas os grandes figurões se mantiveram ricos; na Irlanda, eles caíram com os bancos.

Nesse sentido, é importante destacar como ocorre a lei da falência Irlanda: eles são bem severos, de modo que a pessoa física fica, de certo modo, vinculada a pessoa jurídica. Então, se sua empresa abrir falência, você terá restrições para crédito por muitos, muitos anos; ao contrário dos EUA, onde a lei de falência praticamente incentiva a criação de negócios. Nesse sentido, os banqueiros e empreendedores Irlandeses sofreram muito mais com a crise do que os americanos.

  • Luís
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    Luís

    Amigo, a resposta para a pergunta talvez esteja na sua conclusão que está por vir… mas vamos lá…

    Quanto tempo vc acha que o mundo precisará pra dar uma boa melhorada? Eu chuto 10 anos!

    E aí?

    • Paulo R. Ribeiro
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      Paulo R. Ribeiro

      Cara, você me fez uma pergunta muito, muito difícil (talvez a mais difícil a se fazer depois de ler essa série)!

      Se continuarmos, como planeta, estimulando o empreendedorismo e se o desenvolvimento tecnológico continuar ocorrendo… eu diria uns 40 anos. Mas fica difícil saber, pois o problema não é apenas financeiro; uma vez que o lance fica “feio”, o lado social grita.

      Por exemplo, o novo partido eleito na França impôs impostos de renda de SETENTA E CINCO porcento em quem ganha mais de 1 milhão de euros por ano. Diga aí, 3/4 do seu dinheiro ir para mão do governo? Pode ser que haja uma revolução na grécia, por exemplo, se o governo quiser cortar mais gastos. Enfim, são tantas variáveis a considerar que é impossível saber.

      Contudo, eu bem importante essa questão que você fez. Não é porque o tema é difícil demais que devemos ignorar (como quase todo mundo faz), mas sim nos mantermos tão bem informados quanto o possível.

  • Será mesmo que o Brasil é uma referência para o mundo? | horadobananense
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    Será mesmo que o Brasil é uma referência para o mundo? | horadobananense