Este Texto Pode LITERALMENTE Salvar Sua Vida

Quase ninguém sabe, mas para usar nosso cérebro bem, você precisa ler o “manual do aparelho”.

Tal manual não veio anexado. Na realidade, ele nem existe por completo: os cientistas da área têm feito um grande esforço para ir criando e atualizando conforme nossa compreensão da mente humana avança.

No dia a dia, olhando a mente “pelo lado de dentro”, não se nota a necessidade de um guia de uso, já que ela parece funcionar bem. Essa ilusão existe porque um equipamento “quebrado” raramente consegue identificar o próprio defeito. Mas as falhas estão lá, só você não está vendo.

Elas existem porque a mente chegou a tal nível de complexidade por pressões evolutivas que não tinham obrigação alguma em “fazer tudo certinho”, em ser perfeito; a única obrigação era sobreviver.

Pegue essa máquina muito boa para uma vida de perigos, e caça, e leões em savanas africanas e coloque-a em um contexto complexo para o qual ela não foi adaptada, como os dias de hoje; você notará os problemas surgindo rapidamente.

Agora não vou apresentar o “manual do usuário” para você; é bastante conteúdo que abarca um treinamento que leva anos para ser concluído, treinamento esse que não cheguei a completar.

O que eu quero apresentar hoje é um dos problemas mais sérios com o cérebro humano, um problema que saber a respeito pode literalmente salvar sua vida.

Hollywood entendeu tudo errado

I.

Era um desastre de avião como outro qualquer.

Começou com um Boeing, que aterrisou sem maiores problemas e já taxiava na pista. Os passageiros soltavam o cinto e você já organizava seus pertences para deixar o avião, depois de um longo vôo. Olhando pela janela você não via muita coisa, por causa de uma neblina densa.

Então, do nada, você sente um choque gigante de calor e uma pressão imensa cercando seu corpo, com a onda de impacto sacudindo todos os seus orgãos. O maior barulho que você já ouviu na sua vida faz seu tímpano tremer, como se dois trens estivessem colidindo de frente.

Um instante mais tarde, a parte superior inteira do avião desaparece e você está olhando para céu. Fogo. Há fogo e fumaça por toda parte.

II.

Em 1977, em Tenerife nas Ilhas Canárias, uma série de problemas levou dois boeings 747 a se chocarem enquanto um deles tentava levantar voo.

A cena não é muito difícil de entender. Graças a uma neblina incomum e problemas na comunicação da torre com os pilotos, dois aviões diferentes usaram a mesma pista, ao mesmo tempo: um pousava enquanto outro decolava.

Um erro que seria cômico, daqueles que se vê em quadrinhos, se não fosse trágico.

O resultado foi um completo desastre: o avião que tentava levantar voo arrancou a parte superior daquele que se encontrava em solo e seguiu por mais algumas centenas de metros até explodir em uma bola de fumaça e fogo.

O que tinha acabado de pousar não explodiu de imediato. Com o topo removido e a fuselagem lateral danificada, relatos de sobreviventes apontam que houve pelo menos 60 segundos entre o choque e a explosão final.

Você consegue imaginar esse último minuto? Todo mundo no avião correndo para as laterais, fazendo um pulo de uns 6 metros para o chão e correndo para longe do acidente?

III.

Infelizmente, essa é uma das situações onde o cérebro humano falha em funcionar da maneira que se espera. E leva centenas de pessoas a morte consigo.

Nos filmes hollywoodianos, sempre que um desastre acontece, as pessoas reagem como “uma boiada”, correndo para a saída ou seguindo a multidão de um modo estúpido, enquanto o mocinho age de modo calmo e calculado.

Na vida real, nenhum dos dois cenários é provável. No desastre descrito, dezenas de pessoas continuaram sentadas em suas cadeiras, em um estado meio “mumificado”, enquanto as chamas evoluíam às suas voltas. Escapar era possível e alguns conseguiram, porém a maioria ficou onde estava e perdeu a vida naquela noite depois da possibilidade de fuga ter se esvaído e a explosão acontecido.

O viés da normalidade

Não importa o que você encontra na vida, sua primeira análise de qualquer situação é enxergá-la no contexto do que é normal para você e então comparar e contrastar as novas informações com aquilo que você sabe que normalmente acontece. Por isso, você tem uma tendência a interpretar situações estranhas e alarmantes como se elas fossem apenas algo usual.

― David MacRaney

Essa tendência humana de enxergar situações catastróficas sob a lente do que é comum é um viés cognitivo famoso chamado viés da normalidade. Por incrível que pareça, funciona quase como um mecanismo anti-pânico: você se nega a reagir em desespero porque aquilo nunca aconteceu antes, então é provável que não tenha acontecido agora.

Se seu prédio nunca foi atingido por aviões, mesmo que quando você vê um dos andares abaixo explodindo, não há necessidade de pânico, certo? Deve ser mais uma daquelas simulações chatas que os bombeiros fazem de surpresa. Dá tempo de pegar casaco e ligar para casa, avisando que vai chegar mais cedo…

Que foi exatamente o que muita gente que estava no World Trade Center fez no dia do ataque as Torres Gêmeas.

E não importa se o perigo que você está passando é iminente ou avisado com antecedência, o ser humano mediano vai querer negar a gravidade da ação e agir nos padrões normais.

Isso foi mostrado durante uma série de desastres naturais em 1999, nos Estados Unidos. Por três dias, vários tornados varreram o estado de Oklahoma, incluindo um dos maiores tornados da história, com ventos de 500 km/h (a 300, carros e casa são arrancados do chão). Os moradores do local tiveram aviso de notificação 13 minutos antes da passagem desse monstro, mas muitas pessoas não fizeram nada a respeito. Elas perambularam, acreditando que o tornado iria poupá-las.

Lendo isso, você deve estar pensando: “mas que bobagem, eu teria feito alguma coisa! Nunca que eu, euzinho, ficaria parado esperando desastres como esses acontecerem comigo.”

E a parte triste, a parte realmente triste de toda essa história é que as pessoas que morreram por causa do viés da normalidade pensariam do mesmo jeito. Ignorar sinais óbvios, não agir em situações de vida ou morte, tudo isso não foi algo que elas escolheram fazer; é simplesmente como o cérebro humano está organizado.

Por que, por que somos assim?

É inconsciente, fora de seu controle. Por isso eu disse que a necessidade de um “manual do usuário” para o cérebro humano não é percebida, já que não podemos ver os defeitos pelo lado de dentro. Aquelas pessoas não poderiam saber que iam se comportar daquela forma.

Há algo lógico que explique nossa reação bizarra diante de catástrofes? Não pesquisei muito a fundo, mas não é difícil deduzir. Nós não podemos, automaticamente, reagir a cada menor sinal de um possível perigo catastrófico pois não poderíamos viver uma vida normal se fosse assim.

Imagine seu dia a dia como seria. Andando na rua, você ouve um barulho alto, que pode, em 1 cada 1 milhão de casos, ser um carro desgovernado correndo em sua direção. Então, mesmo que a probabilidade seja ridiculamente baixa, quase desprezível, você age como agiria numa catástrofe e corre desesperado em paralelo à pista, na direção contrária do tráfego.

Passado o pânico, você percebe que não foi nada demais. Um caminhão freou em cima do outro no sinal da outra rua, fazendo um barulho daqueles. E você segue o dia super-reagindo ao menor sinal do que possa ser, com uma probabilidade mínima, um desastre e logo logo estará maluco.

Assim, de um ponto de vista evolutivo (troque carro por elefantes, por exemplo), é razoável que nossa mente, que evoluiu para a vida na savana, não esteja programada para reagir a pequenos sinais indicando acontecimentos catastróficos, já que esses são muito raros.

O que, claro, não significa que você deva morrer em alguma catástrofe que porventura venha a viver. Há algo que você possa fazer a respeito.

Uma exemplo pessoal de catástrofe (ou quase isso)

Shopping - Praça de Alimentação

Era uma tarde como qualquer outra.

Horário de almoço, no meio da semana, então a praça de alimentação se encontrava lotada e com muito movimento. Eu estava lendo, meio de bobeira, sentado em uma mesa em uma ala lateral da praça.

Do nada, eu ouço um barulho alto, muito alto, seguido de gritaria. Levanto a cabeça e vejo muita gente correndo em minha direção, derrubando prato, talheres, com um estrondo enorme.

Na hora, meu cérebro ligou o modo de crise. A primeira coisa que eu fiz foi correr para a parede mais próxima e andar com corpo encostado nela, em direção à saída.

É válido ressaltar que nessa época (alguns meses atrás) os shoppings estavam presenciando bastantes “rolezinhos” e meu primeiro pensamento foi que um desses teria se transformado em arrastão.

Eu já tinha imaginado esse cenário, rodado o filme várias vezes na minha cabeça, me condicionando a buscar uma parede próxima quando me deparasse com um problema de multidão para minimizar as chances de ser pisoteado (um dos maiores perigos, mesmo em alarmes falsos).

Todo o ocorrido durou uns 3 segundos. Não havia tempo para parar, raciocinar sobre o que poderia estar acontecendo e tomar o melhor rumo. Em situações extremas, você age como foi condicionado.

Como contornar esse cérebro de macaco?

Os passageiros do avião que não saíram de seus assentos e morreram na explosão não tinham preparo algum, o que os deixou à mercê do funcionamento natural da mente deles. Enquanto que ela funciona bem na maioria do tempo, em situações extremas, há possibilidade de falha.

Não foi nem paralisia de medo (condição psicológica bem conhecida); eles estavam mais ou menos conscientes, mas se negavam a acreditar na gravidade da situação. Como nunca tinham estado em um desastre antes (nem tinham imaginado estar), simplesmente não acreditavam que aquilo poderia acontecer com eles, apesar de toda as evidências disponíveis (explosão, fogo e dano na aeronave).

John Leach, psicólogo da Universidade de Lancaster que também estuda essa “trava” na hora do pânico, diz que 75% das pessoas acham impossível raciocinar durante uma catástrofe ou um desastre.

…o cérebro deve passar através de um procedimento antes que o corpo aja – cognição, percepção, compreensão, decisão, implementação e então movimento. Não há como turbinar isso, mas você pode praticar até que esses passos individualmente não sejam mais complexos…

Para corrigir esse tipo de problema, você precisa estar preparado. Embora raro, o desastre não pode ser surpresa, é preciso desenvolver um plano com antecedência. Imaginar vários tipos de problemas que pode acontecer e o que você faria em cada situação.

Em caso de incêndio, o que fazer? E acidente de carro? E se o teto caísse? Terremotos, tornados, multidões descontroladas… você precisa pensar sobre tudo, buscar informações sobre a melhor maneira de agir em cada situação e “rodar o filme” na sua mente várias vezes.

… o tipo de pessoa que sobrevive é aquela que se prepara para o pior e pratica com antecedência. Elas fizeram pesquisa, ou construíram um abrigo, ou realizam simulações. Eles procuraram por saídas e imaginam o que fariam. […] Essas pessoas não deliberam durante uma calamidade porque elas já fizeram a deliberação que as outras pessoas ao redor delas só estão passando naquele momento (durante a calamidade).

― David MacRaney, no excelente livro “Você não é tão esperto

Pronto, está aí. É possível que agora sua vida possa ter sido salva.

 

Paulo Ribeiro

Autor, empreendedor, amante do aprendizado e um estrategista moderno. Escreve sobre estratégias para viver uma vida melhor e mais significativa.

 
  • Demais! Um exemplo em maior escala é a crise que o Brasil vai enfrentar em pouco tempo. Triste ver o país que nasceu depois do Plano Real morrer com apenas 20 anos.

    Certo, sobre calamidades e desastres naturais, eu já pensei em algumas situações. Existe também o caso de pensar sobre uma possível mudança o quanto antes. Eu me pergunto como algumas pessoas vivem em área de risco e nunca mudam-se. Amar um lugar não é motivo para ficar e morrer.

    Muito bom mesmo esse texto Paulo!

    • >Um exemplo em maior escala é a crise que o Brasil vai enfrentar em pouco tempo. Triste ver o país que nasceu depois do Plano Real morrer com apenas 20 anos.

      Explica isso, por favor?

      • vinicius

        Também quero uma explicação.
        Visto que estou achando que o Brasil vai sim explodir daqui a uns anos, acho que o principal fator para isso é o crescente numero de homicídios.

      • Falo da alta inflação, da desvalorização da moeda nacional que já foi mais valorizada, o baixo PIB, e a situação geral que beira o estado em que o Brasil estava antes de eu ter nascido, antes do Plano Real.

        Com isso que eu falei, as pessoas acham que nunca vai acontecer de novo a ditadura, a democracia falha e que tem alguém conduzindo esse curso para interesses próprios. É muito difícil a maioria acreditar que isso esteja acontecendo justamente pelo que você permeia o seu texto.

        Vai ser preciso a catástrofe acontecer para alguém fazer alguma coisa?
        E como você recomendou, eu estou buscando formas de me manter de pé e até aproveitar a “queda do avião” e fazer um belo “salto de paraquedas”. :D

    • Marcos

      Hummm… Me parece que alguém andou lendo o relatório da Empiricus e levou a sério demais.

      • Hehe, mais ou menos! Eu relevei, mas tive que concordar com esse ponto. Certo, não é necessário o relatório da Empiricus para perceber o estado de sonolência no Brasil. As pessoas acham que nada vai acontecer, que está tudo bem.

        Muito bem observado por você Marcos :D

        • Marcos

          Ah sim Kellvyn. O ativo que pode salvar a todos no caso de um desastre são terrenos agrícolas. Com isso já te poupo a grana da assinatura lá da empiricus, segue o artigo de onde eles tiraram isso: http://moneytalks.net/pdfs/farmlandstory.pdf

          Vá juntando dinheiro para comprar uma granja em alguma cidade do interior. :D

          • Aham, soube que eles tinham copiado de cara. Enfim, fugimos do tema do artigo. Desculpa @paulorrjr:disqus , rsrs.

            Abraço Marcos!

  • Fernando Rui

    Nossa, que aula!

    Excelente artigo Paulo. Muita clareza nas informações.

    Eu sempre que entro nos lugares procuro saídas de emergência, imaginando por alguns minutos o que faria nas situações. Que bom que não sou louco então!? eheheh

    Fiquei curioso sobre o caso do restaurante. O que aconteceu depois? Era problema mesmo?

    Grande Abraço,

    • >Que bom que não sou louco então!?

      Nah, somos preparados!

      Sobre o caso do shopping, foi um acidente durante o processo de reforma de uma escada rolante que desencadeou a confusão.

      Abraço

  • William da Costa Braz

    Muito bom Paulo!

    Eu sou natural de Santa Maria, cidade onde ocorreu a tragédia que vitimou centenas de pessoas em uma boate. Desde então, aumentei o meu cuidado e dobrei minha atenção qualquer tipo de intempérie que possa vir a ocorrer.

    Nunca fui do tipo que acha “ahh…isso nunca vai acontecer comigo”. Tenho certeza de que quando treinamos para alguma situação difícil as nossas chances de êxito aumentam consideravelmente.

    No Exército, faz parte do treinamento estar sempre pronto, ainda que o local ou momento não se mostre adverso. Quando tudo esta tranquilo é que devemos ficar mais atentos.

    Um grande abraço!

    • Exatamente, cara. E o exército deve ter sido de uma ajuda e tanto para esse treinamento.

      abraço

  • Hélio Morello

    Muito interessante!

    Essa “habilidade” de saber agor diante catástrofes acabei aprendendo a desenvolver da pior maneira que poderia imaginar.

    Passei até por duas situações complicadas onde incrivelmente tive calma para resolver: uma foi quando caí do teto de casa e quebrei o braço. Tranquilamente recolhi meu braço quebrado e encostei na parede. Liguei calmamente para um amigo para ele chamar a SAMu. Ele ficou mais nervoso do que eu rs…

    Outro caso, bem mais complicado foi quando em um assalto, eu sem ao menos reagir, fui baleado. Caí no chão e acabei tranquilizando as pessoas que vieram me socorrer. Peguei meu celular que estava atrás de mim (os fdp não levaram e deixaram cair) e dei para uma pessoa que apareceu na minha frente, e falei: “Oi, você pode chamar a âmbulância pra mim?”

    Comecei a agir assim depois que internalizei que assim que eu tenho um problema surgido, tenho que focar na solução naquele momento, até porque nafa fará voltar atrás para evitar. E a outra é entender que com a mente confusa e congestionada, não conseguimos resolver NADA!

    Mais um bom artigo, Paulo. Abraços!

  • Pingback: O que deixei de aprender com a minha experiência de quase morte | PapodeHomem()

  • vinicius

    Já passei por uma cena semelhante no shopping, eu pulei o balcão de atendimento e invadir o MC donald’s, meus amigos ficaram parados do lado de fora, depois do susto riram do meu desespero, mas quem estava mais seguro durante o “evento” era eu. Eu até ajudei a abaixarem a lona do MC donald’s, os funcionários queriam me por pra fora no meio do tumulto, mas o gerente me permitiu ficar durante um tempo. E outro caso em que agi por instinto de preservação foi quando caminhava na orla de salvador (onde moro) a noite, e do lado oposto a pista dois motoqueiros começavam um assalto a um individuo que também caminhava, eu só disse para os meus amigos, -corre. Eles andaram mais rápido e riram mais uma vez da minha cara, eu sempre costumo fazer loucuras para “sobreviver”, que foge e muito dos padrões dos meus amigos, acho que estou agindo bem então.

    • Vai com esse instinto, cara. Não deixa o medo de ser passar vergonha te imepdir de agir nas situações que você considera necessário.

      (O cérebro está “programado” para exagerar na importância de situações socialmente embaraçosas, então nunca é tão ruim quanto parece)

      Claro, não vai ficar paranóico, já que é muito mais provável que você não passe por uma catástrofe do que o contrário, mas ainda assim é um impulso bom de se ter.

  • Lucas

    Muito bom! Eu, por exemplo, passei a criar planos de contingência para diversas situações adversas, no qual estabeleço a melhor forma de proceder em cada situação, desde as mais simples (perda/furto de celular) às mais complicadas (incêndio; assalto; acidentes etc.). Eles não são “coisa de paranoico” nem mesmo fixos (sem levar em conta que as circunstâncias são variadas), mas os vejo mais como uma forma de treinamento do auto-controle da mente em situações anormais.

  • Daniel Bittencourt

    Ótimo texto!
    É uma pena não conseguir encontrar mais informações sobre o assunto em português.