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Economistas tradicionalmente conceitualizam o mundo como cheio de pessoas racionais, calculistas, que buscam maximizar o retorno de suas ações, verdadeiros Homo Economicus. Esse modelo da humanidade ignora completamente todos os estudos comportamentais por psicologistas sociais e cognitivos. Enquanto há grupos que afirmam ser essa a abordagem correta, outros atestam que essa simplesmente é a maneira mais simples de modelar as pessoas.

O modelo econômico padrão inclui 3 traços irrealistas para as pessoas: racionalidade ilimitada, força de vontade ilimitada e egoísmo limitado. Já dá para perceber que são 3 premissas muito fortes para se considerar enquanto construindo um modelo, mas como as alternativas eram complexas e desse jeito era mais simples realizar estudos, o modelo passou sem muito questionamento por bastante tempo.

Qual é o problema em assumir racionalidade, força de vontade e egoísmo ilimitados?

Bem, para começo de conversa, não somos tão espertos quanto pensamos. Trabalhos extensivos do psicólogos no último século já resultou no catalogamento de mais de 100 vieses cognitivos. E, se você considerar que o ser humano usa um cérebro perfeitamente adaptado para o ambiente de 10 mil anos atrás, é até de se esperar que cometamos todos os tipos de erros bizarros de julgamento em uma sociedade tão complexa, por comparação.

Além disso, não somos seres que maximizamos a eficiência de todas as nossas ações, simplesmente porque não possuímos capacidade ilimitada de processamento. Então ao lidar com problemas, mesmo econômicos, complexos geralmente nos sentimos sobrecarregados e terminamos escolhendo no “mamãe mandou” (ou, pelo menos, de maneira sub-ótima).

E quanto completo autocontrole? Bem, se possuíssemos isso, não teríamos problemas de produtividade, nem vícios negativos (problemas de alimentação ou de fumo) ou qualquer outro distúrbio de comportamento. A verdade é que temos menos controle sobre nós mesmos do que gostaríamos de imaginar (afinal, ainda existe procrastinação, por exemplo).

Quanto ao egoísmo, aqui surge o resultado mais surpreendente. Mesmo eu achei que seria uma pressuposição razoável para criar um modelo do comportamento da sociedade assumir que os agentes só buscarão satisfazer interesses pessoais e familiares. Errado.

Uma pequena estatística para confirmar isso: só nos Estados Unidos, um país que pode ser representativo de egoísmo pela cultura capitalista aflorada, em 1998, 70,1% de quem possuía casa própria doou algum dinheiro para caridade. Em média, doaram 2,1 % do renda da família. Isso mostra que os seres humanos estão longe de ser completamente egoístas.

Aqui entra a Economia Comportamental

O que acontece se, na hora de modelarmos as pessoas, levamos em conta esses pequenos “defeitos” ignorados no modelo padrão econômico? Torna-se possível explicar alguns fenômenos interessantes.

Por exemplo, vejamos a área de Finanças. Se um economista dos anos 80 fosse perguntado sobre em qual área faria mais sentido assumir seres completamente racionais, ele com certeza responderia “Finanças”. Um economista de ponta denominou a hipótese do mercado eficiente como o fato econômico mais bem estabelecido, que segue o modelo tradicional de pensamento. Então, como a abordagem comportamental entra aqui?

Dois fatores contribuíram para o sucesso surpreendente da economia comportamental no estudo de finanças: economia financeira geralmente gera previsões testáveis sobre fenômenos observáveis (valores de ações, desempenho de empresas, etc) e o fato de haver muitos dados disponíveis para testar essas previsões (mercado financeiro completamente eletrônico).

Vamos reexaminar o campo do ponto de vista comportamental. Uma das hipóteses da teoria do mercado eficiente (e racional) é a imprevisibilidade. Em um mercado eficiente, não é possível prever o valor futuro das ações baseando-se em informações disponíveis publicamente. Há algumas violações ao princípio, claro, mas elas são pequenas e não estão diretamento ligadas ao fator comportamental. Por exemplo, ações de um modo geral e principalmente ações de pequenas empresas crescem em janeiro ou se vão bem nas sextas-feiras (e ruim nas segundas).

Em termos comportamentais, em 1985, um estudo feito por Werner De Bondt e Richard Thaler conseguiu evidências experimentais que pessoas tendem a dar importância excessiva a novas informações. Com base nisso, eles teorizaram o que ações as quais tiveram boa performance durante um período de anos teriam seus preços crescentes, atigindo um ponto onde estariam bem mais caras do que deveriam, pois as pessoas estariam super-reagindo à informação de que a ação está com boa performance. O processo parecido com ações de baixa performance (cujo preço estaria mais baixo do que deveria).

Isso levou a criação de uma hipótese de previsão do futuro (o que não é possível na teoria do mercado eficiente): ações que foram bem no passado deveriam ter uma perfornance abaixo do mercado (pois os preços estariam ‘supervalorizados’ com as pessoas super-reagindo à informação de que a dada ação está boa), enquanto ações que foram mal no passado deveriam ter uma performance melhor que a do mercado pelos mesmos motivos.

Utilizando dados disponíveis sobre a compra e venda de ações em Nova York, a hipóstese realmente se confirmou válida, comprovando a aplicabilidade da teoria comportamental no mercado financeiro.

Um estudo que achei particularmente interessante foi a conclusão de que corretores de ações são mais inclinados a vender ações que estão em alta do que ações que estão em baixa(mesmo sob a perspectiva de mais futuras baixas), pois desse modo eles teriam que admitir para a’ perda’ si mesmos. O nome disso vem a ser “o efeito da disposição”.

As implicações do desenvolvimento economia comportamental

Se você não achou tudo isso interessante, ainda tem mais. Não apenas para mudar a base do modelo atual de ser humano social serve a economia comportamental. Todo um novo campo de estudos está sendo desenvolvido pois agora cientistas levam em conta que não tomamos decisões ótimas ou temos defeitos associados a um ser humano médio (procrastinação, vícios, vieses cognitivos etc).

Logo, toda a relação do homem com coisas quantificáveis que precisam se basear em tomada de decisões, como a relação com o dinheiro, a relação com o bem-estar/felicidade, tem sido estudada mais a fundo por essa galera.

(Note que economia comportamental é um campo misto, envolvendo ciências cognitivas – lógica, teoria das decisões, etc , psicologia e economia em si. Por isso, os profissionais da área tem formação diversa)

Um dos meus autores favoritos é um destaque no meio: Daniel Kahneman. Os livros (e seu trabalho de pesquisa em geral) tratam de assuntos como felicidade, pensamento, dinheiro, tudo do ponto de vista psicoeconômico.

Se você deseja mais informações, recomendo esse texto (vou escrever mais sobre o tópico por aqui também). E você, caro leitor(a), tem algo a compartilhar sobre o tema? Algum autor favorito, alguma pesquisa interessante?

  • Paulo Fernandes
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    Paulo Fernandes

    Paulo,

    Ótimo post!
    Gosto muito de economia comportamental. Adoro ler livros do Gladwell e o Dan Ariely.
    Vou pesquisar mais sobre o Daniel Kahneman.
    Se possível, escreva mais sobre esse assunto, pois é sensacional!

    Abração!
    Paulo Fernandes
    @aprendamkt

  • Nudge: O Empurrão para Escolha Certa – CetemCetem
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    Nudge: O Empurrão para Escolha Certa – CetemCetem

    […] à linha de pensamento que está em evidência no mundo todo e deve se ampliar no Brasil, a economia comportamental, onde não importa saber como deveríamos nos comportar, mas como de fato, nós nos comportamos e […]

  • Raquel
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    Author
    Raquel

    Muito legal, esclarecedora explicação! Obrigada pela dica de leitura, também me interesso pelo assunto e vou procurar mais sobre.

  • Jack Antunes Rosa
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    Author
    Jack Antunes Rosa

    Post muito conveniente, e em um momento bastante oportuno, também percebe-se grande utilidade para fins profissionais em âmbito econômico-financeiros :)