Como Levar a Vida Se Você Não Consegue Atingir Seus Objetivos

Um dos incômodos de quase todo mundo é sobre (não) alcançar objetivos. O ano termina, nós escolhemos metas e resoluções, mas não conseguimos alcançá-las.

Ficamos chateados por um tempo, o novo ano termina e entramos em um novo ciclo.

Algumas vezes, situações na vida servem como gatilho para tomarmos decisões de mudança e planejamento de médio-longo prazo, como um término de relacionamento ou um fim de um ciclo.

Mas, na real, um dia você percebe que quase nunca alcança o que planeja. E fica se perguntando: é possível viver gerenciando essas decepções?

As metas de 2012 e qual é minha % de acerto

Uma das grandes vantagens de centralizar todo meu conhecimento no Evernote é que posso fazer viagens no tempo e ter uma boa noção do que se passava na minha cabeça em períodos diferentes.

Minha vida mudou bastante várias vezes nos últimos 3 anos. Hoje, estou no meio de outra grande transição, o que me fez perder um pouco o referencial de trajetória.

Há pouco encontrei minhas metas de 2012, escritas em dezembro de 2011 enquanto eu planejava o novo ano. Vou até colar o documento verbatim aqui:

  • Dedicação e afinco aos Estrategistas, com pelo menos 180 posts em 2012
  • Voltar a praticar Tae Kwon Do, chegando ao menos à faixa azul
  • Estudar e aplicar conhecimentos em várias áreas de Internet Marketing (afiliados, conteúdo digital, sites otimizados para Adsense)
  • Conseguir uma boa nota (pelo menos 85%) em um TOEFL
  • Concluir um curso de Introdução a Ciência da Computação

Para te dar uma referência, sabe quantas metas eu bati no ano de 2012?

Zero.

Sabe quantos desses objetivos eu alcancei nos 4 anos seguintes?

Zero.

De lá para cá, até experimentei fazer ciclos menores de planejamento e execução, com a metodologia de planejamento antifrágil de Taylor Pearson, com ciclos de de 90 dias. Essa estratégia tem funcionado bem melhor; tenho usado sem parar nos últimos 3 anos. Mas por incrível que pareça, minha taxa de acerto é sempre abaixo de 50%.

O que abre espaço para questionamentos: De que adianta planejar a vida se vamos alcançar tão poucas coisas? Existe uma maneira diferente de viver?

Para responder essa pergunta, o segredo está em olhar (e entender) o horizonte.

Qual é sua distância para o horizonte?

Pouca gente sabe, mas se você está caminhando em linha reta ao nível do mar, em menos de 1,5h você alcança o “horizonte” que estava enxergando no momento em que partiu.

Parece um tanto absurdo, dado que o horizonte sempre parece tão longe, mas ele está a 4,7 km de distância. Se você anda no ritmo de um humano normal, chega lá rapidinho.

(A matemática para calcular essa distância é elegantemente simples)

Trazendo isso para nossos planos e objetivos, o cenário muda mais rápido do que imaginamos quando começamos nossa jornada. Ao chegarmos no horizonte (de antes), teremos acesso a uma visão diferente do terreno que enxergamos a nossa volta agora. E, quando falamos de vida, é provável que nós mesmos mudamos ao caminhar um pouco.

Para nosso exemplo, depois de estabelecer um objetivo, em pouco tempo de jornada, é provável que seu horizonte mude completamente ou mesmo seus desejos e vontades.

Então, no meio do caminho, você nem é a mesma pessoa e nem tem a mesma vizinhança que tinha quando começou.

Por essa perspectiva, faz algum sentido criar objetivos?

Estamos fadados a sempre desistir e não alcançar nada na vida?

Ser uma boa pessoa ou fazer boas ações: como julgar o progresso na sua vida?

Temos uma péssima experiência com a ética no geral, mas é um campo interessante se você fica longe dos autores que só falam coisas vagas ou complicadas.

Dentro das várias partes da ética, aquela que considero mais interessante é a ética normativa. De acordo com a Wikipedia:

“Investiga o conjunto de questões que surge quando consideramos como alguém deve agir, moralmente falando”

Em outras palavras, a ética normativa estuda os “sistemas operacionais” disponíveis para as pessoas, quais “bússolas” podemos escolher para tomar decisões: hedonismo, utilitarismo, estoicismo, niilismo, etc.

É uma área de estudo interessante porque é prática: abre a possibilidade de escolhermos como levar nossa vida de modo deliberado. Afinal de contas, quando temos nossas regras, tomar decisões fica mais fácil.

Dentro da ética normativa, há dezenas de escolas de pensamento, mas 3 ramos principais chamam atenção e merecem ser discutidos:

  • Ética da virtude.
  • Deontologia
  • Consequencialismo

Na ética da virtude, o foco principal é o caráter da pessoa, não suas ações específicas.

Para deontologia, as decisões devem ser feitas com base nas obrigações e direitos do indivíduo.

Já para o consequencialismo (teleologia), a moralidade de uma ação está conectada ao impacto final da ação.

Como as três escolas entram em conflito?

Bem, a ética da virtude não se importa com ações, só com o caráter. Para a deontologia, caráter não é o foco e sim suas ações. Para o consequencialismo, nem as ações importam, só o resultado do que você faz.

Trazendo para um exemplo prático: digamos que você notou uma criança em sua vizinhança com um problema de comer muitos doces, o que obviamente faz mal para ela.

Você se veste de monstro e dá um susto nela, dizendo que o açúcar é ruim e que ela não pode comer demais.

Sua ação foi certa ou errada?

A consequência dessa ação é que ela vai comer menos açúcar no futuro, então, de acordo com o consequencialismo, foi uma ação boa. PORÉM, você tinha o direito de dar susto no filho do vizinho? Não, por isso de acordo com a deontologia, a ação foi negativa.

Já para a ética da virtude, depende. Se por dentro, você fez isso de uma vontade genuína de ver a criança saudável, a ação foi boa porque a intenção era boa. Mas se, digamos, você tem uma vontade esquisita de assustar crianças e aproveitou a oportunidade para ter uma desculpa, sua ação foi ruim, porque sua intenção é ruim.

Note que, para o consequencialismo, não importa se você se secretamente gosta ou não de assustar crianças – se o resultado final da situação é a criança comendo menos açúcar, então a ação é boa.

O que nos traz aos nossos objetivos de vida e como julgamos nosso próprio sucesso. O que é mais importante para você: a intenção das ações, as virtudes de quem age ou o resultado final?

Para quem valoriza impacto acima de tudo, o melhor é o consequencialismo.

Para quem segue uma vida religiosa, o caminho é a ética de virtude.

Para quem valoriza os princípios e um código de conduta, o caminho é a deontologia.

Impacto, virtude ou conduta: escolha seu caminho

Em diferentes momentos da vida, você valoriza coisas diferentes. Não existe resposta óbvia para a pergunta acima, nem uma escola clara que seja melhor que as outras.

Até meu exemplo acima deve ter vieses pessoais, é difícil falar desse assunto de modo neutro. Quando mais jovem, já fui altamente consequencialista. Minha lógica era: quero criar impacto no mundo e nasci cheio de privilégios – sou mentalmente forte e consigo aguentar o peso enquanto trabalho para gerar impacto.

Essa postura é ok e funcionou bem por muitos anos… Até que chegou o momento em que ela parou de fazer sentido. Algumas passagens encapsulam bem o sentimento da mudança:

“Como nós passamos nossos dias, é, claro, como nós passamos nossas vidas”

– Annie Dillard

E…

“Não coloque seu propósito em um lugar e espere ver progresso feito em outro lugar” – Epictetus

Um dia eu acordei e decidi que não queria mais pagar o preço psicológico de ser um consequencialista, de colocar coisas fora do meu controle (é impossível controlar 100% o resultado de suas ações) como responsáveis por meu bem-estar.

E, mais importante para essa mudança, senti na pele que alcançar o que eu queria não mudaria como eu estava me sentindo. Afinal, somos criaturas de hábitos.

Se passo 99% do tempo me sentindo para baixo enquanto me esforço para conseguir algo, no 1% do tempo que conseguir, não saberei ser feliz e comemorar – meu comportamento padrão será “absorver a vitória” e seguir com o mesmo padrão de sofrimento para o próximo desafio.

[De modo similar, se passamos a maior parte do tempo com uma mente ansiosa para chegada do feriado, como iremos ter uma mente tranquila para aproveitá-lo quando chegar? A mente seguirá ansiosa por outros motivos.]

Discutindo assim, parece fazer todo sentido, certo? “Como assim você acreditou naquilo, Paulo, é óbvio que aquele caminho não é sustentável”.

Bem, eu pensava que “você não pode se considerar uma pessoa boa só porque age certinho, você tem que garantir que suas ações estejam gerando impacto positivo. Caso contrário, você só está agindo certinho para satisfazer seu senso de certo/errado e não para ajudar as pessoas de verdade”.

Ainda não sei exatamente como argumentar o ponto acima, só ficou claro que mentalmente se tornou insustentável viver de modo completamente consequencialista.

Outra questão sensível é que meu perfil analítico, de metodologias e processos, valoriza muito resultados. Afinal, até hoje ainda sigo uma metodologia de planejamento com ciclos de 90 dias, com metas/objetivos etc. Isso é um modo consequencialista de encarar a produtividade; alguém que “mudou de escola”, como eu, precisa de uma forma diferente de enxergar o progresso na vida.

Por isso vamos mergulhar em uma escola diferente de produtividade, na qual não importa o que você alcança, apenas as regras internas que segue no dia a dia.

Escrevendo suas próprias regras para a vida

“Ser humano, não fazer humano”

– Marco Aurelio

Uma das grandes experiências de trabalhar em uma startup em fase de crescimento é observar a importância da cultura da empresa.

Ao contrário do que a sabedoria popular imagina, cultura é algo extremamente importante para qualquer instituição. Além das palavras bonitas e vagas que vemos por aí, o que tenho visto de perto é que seguir a cultura age com um forma de tomar decisão quando não conhecemos o melhor caminho.

No caso de uma startup, o ambiente não tem muitas regras – em parte, porque ninguém tem tempo de criá-las. A cultura, nesse caso, se consolida o framework que as pessoas usam tomar decisões quando “ninguém está olhando para elas”, quando não existe ainda uma indicação do melhor caminho a seguir.

Daí definir a cultura especialmente durante a fase de crescimento é fundamental, já que o presidente e os diretores não têm condições de estar presente em todas as decisões que todos irão tomar.

Além de viver mergulhado na In Loco, pouco depois tive a experiência de abrir minha própria empresa e implantar esses aprendizados do zero. A experiência tem sido incrível e temos feito coisas fantásticas em grande parte à cultura que dita o modo de trabalho.

E o que isso tem a ver com sistemas de ética e formas de alcançar nossos objetivos, você pergunta?

Bem, para seguir uma vida mais deontológica (na qual a conduta importa mais), temos que medir nossa vida de acordo com aquilo em que acreditamos. Assim como empresas, temos muito a ganhar quando esclarecemos nossa cultura e nosso código de conduta.

O que, claro, não é uma ideia nova.

O próprio Taylor Pearson, criador da metodologia de planejamento que uso atualmente, sugere a criação dos seus “Princípios Gerais de Ação”:

“Quando não há um processo estabelecido para fazer algo, seus ‘princípios gerais de ação’ são um conjunto de princípios, heurísticas e regras simples para permitir julgamentos mais efeitos para modificar sistemas existentes ou criar novos sistemas”.

O sistema operacional de pessoas de sucesso

No meio do desenvolvimento pessoal, dois exemplos aparecem de modo recorrente em qualquer leitura que você faça do assunto: Kekich e Ray Dalio. Vamos dar uma olhada no que temos a aprender com eles (e outras fontes de inspiração).

1. As crenças de Kekich

David Kekich é um empreendedor bem sucedido no ramo de seguros e investimentos, que tinha uma vida ativa e bem atlética. Certo dia, ele acorda com dor nas costas e, menos de uma semana depois, está paraplégico. Nessa mesma época, sofre um desentendimento com o sócio e fica sem negócio e sem mobilidade.

Imagina o que deve ter sido esse momento? Depois de atingir o fundo do poço, ele reassume controle da própria vida, cria novos negócios e começa a se envolver com iniciativas sem fins lucrativos, fundando a Maximum Life Foundation, dedicada a curar doenças relacionadas ao envelhecimento.

Pela montanha russa na vida, David tem bastante a compartilhar. A realidade é que sua história de vida é pouco conhecida – ele é normalmente referenciado pelo documento que escreveu. Se você quiser ler as 100 crenças do Kekich, pode acessá-las aqui. Algumas favoritas:

“Desperdiçar tempo é desperdiçar sua vida. As escolhas mais importantes que você vai fazer serão sobre como você usa seu tempo”

“Se não há um esforço consciente para ser honesto em situações difíceis, você provavelmente está sendo desonesto.”

“O caráter de alguém não é testado de verdade até que as coisas comecem a dar errado ou tenham grandes consequências”

2. Os Princípios de Ray Dalio

Ray Dalio é um fundador da Bridgewater, o hedge fund mais bem sucedido da história. No mundo financeiro, no setor mais agressivo, ele fundou um negocio que consegue bater o rendimento do mercado consistentemente por anos.

No mundo dos negócios, é famoso por ter codificado os princípios sobre os quais gerencia Bridgewater e a própria vida em um documento que circulou por anos na internet. Em 2016, ele finalmente “deu atenção” ao projeto e transformou em um livro.

Seu princípio mais fundamental?

“Verdade — mais precisamente, uma compreensão acurada da realidade — é o fundamento essencial para produzir bons resultados.

“Você pode ter virtualmente qualquer coisa que você queira, mas você não pode ter tudo que você quer.”

3. Taylor Pearson

O próprio Taylor listou os seus princípios pessoais e conseguiu algo legal: colocar a fonte de onde tirou cada princípio. Desse modo, a lista dele serve como um verdadeiro índice de materiais interessantes para leitura.

Alguns interessantes:

“Eu não tento empurrar as pessoas pela porta, mas eu sempre almejo deixar a porta aberta e estar disponível. Eu acredito que o barco navega com a correnteza.”

“Eu não reclamo ou lamento. Eu não desabafo falando sobre os problemas; eu desabafo executando e tendo orgulho do meu trabalho.” (Fonte: Sebastian Marshall. Esse mesmo)

4. Meus princípios

No espírito de transparência, vou colocar aqui parte do meu documento. Não existe uma lista muito organizada e, só nas últimas semanas, comecei a prestar mais atenção em refinar meu código.

  • Fale sempre menos que o necessário (Fonte: Robert Greene)
  • Nunca convença com palavras, mas com ações (Fonte: Robert Greene)
  • Se está perdido e não sabe como gastar o tempo, largue tudo e vá ler.
  • Você obtém aquilo que demanda, muito mais frequentemente do que imagina. Sempre demande como se fosse um rockstar.
  • No final das contas, perceba que você é apenas tão valioso quanto os riscos que está tomando pelo bem do coletivo (Fonte: Nassim Taleb)
  • Seja exageradamente exigente das poucas coisas que realmente importam e ignore o resto (Fonte)
  • Nunca conte o dinheiro do próximo. (Fonte)

5. Outros princípios na literatura

Meditações, de Marco Aurélio, com certeza foi a primeira obra incidental desse tipo na história. De certo modo, livros com conselhos privados de pais para filhos também contam, como As cartas do mercador a seu filho.

Recomendo livros de aforismos, pois costumam empacotar bastante sabedoria em passagens rápidas. The bed of procrustes de Nassim Taleb, Ensaios e Aforismos de Schopenhauer, Máximas e Reflexões de La Rochefoucauld, dentro outros.

 

Paulo Ribeiro

Autor, empreendedor, amante do aprendizado e um estrategista moderno. Escreve sobre estratégias para viver uma vida melhor e mais significativa.